94º dia - Peripécias na Emergência

Ainda não terminei o curso e já me perguntam em qual área me quero especializar. Nunca estou descansada. Quando tinha 10 anos perguntavam o que queria ser quando fosse grande. Quando tinha 15 anos perguntavam qual área queria seguir. Aos 18 perguntavam que curso queria. A próxima deve ser já para o ano "tão quando te reformas?". É natural, também eu faço essas perguntas e na verdade fazem-nos refletir. 
Desde o primeiro ano do curso que sabia que nunca iria gostar da área dos Cuidados Intensivos, estagiei nessa área em Faro e jurei para nunca mais. A verdade é que durante esta semana ficarei pela unidade de Cuidados Intensivos daqui e não tem nada a ver, estou a adorar. Realmente a equipa multidisciplinar é um factor predominante para que o estágio corra pelo melhor, são impecáveis e estou a aprender o que não aprendi em Faro. Se a "minha" enfermeira de lá estiver a ler isto ainda bem, tenho pena dos próximos alunos que viverão o inferno que vivi com ela. Lamento. Continuando, o que me sempre cativou foi a Emergência. Fazer parte da equipa do INEM era o ideal para mim, quem sabe, um dia. Tive a oportunidade de estagiar durante uma semana no serviço de Emergência aqui do Hospital Universitário de Santa Catarina. Nem vale a pena comentar, amei! Mas não posso deixar de vos contar algumas peripécias que vivi enquanto estive na triagem.
- "Bom dia! O meu nome é Verónica e sou aluna de enfermagem, o que o trouxe até à emergência?"
- "Bom dia enfermeira. Então é assim, começou-me a doer muito a garganta há uns 5 dias, estava inchada e custava a engolir..."
- "Certo, e hoje procurou a emergência porque piorou?"
- "Não, na verdade até estou melhor..."
Estão a imaginar a minha cara? Pois. Próóóximo!
- "Bom dia! O meu nome é Verónica e sou aluna de enfermagem, o que a trouxe até à emergência? Ah você não esteve cá ontem?"
- "Bom dia! Sim sim estive."
- "Então e porque voltou? Está pior? Que receitou ontem o médico?"
- "O médico receitou-me estas 3 caixas de comprimidos. Ontem tomei e hoje não estou melhor..."
Ok. As pessoas devem pensar que um comprimido faz milagres e que não é necessário dar continuidade ao tratamento, esperar pelo menos 24 horas que ele faça efeito. Ok!!!
Às vezes a minha vontade de mandar estas pessoas para casa é maior do que estar no meu serviço favorito. Pessoas que sabem que vão receber pulseira verde e obrigam-se a estar numa sala de espera, com o corpo doente, quando estavam melhor na cama à espera que o tratamento fizesse efeito! Não consigo entender! Depois reclamam que o Sr Doutor está a fazer uma reanimação em vez de estar enfiado num gabinete a repetir o que disse no dia anterior. Haja paciência! Em ambas as situações, os pacientes deveriam ter-se dirigido ao posto de saúde. Seriam atendidos mais rapidamente e é para isso que ele serve. Serviço de emergência tal como o nome indica é para situações mais graves.
Ahh mas tive mais umas peças das boas:
- "Bom dia! O meu nome é Verónica e sou aluna de enfermagem, o que a trouxe até à emergência?"
- "Tão não vê?? -.-"
- "Desculpe? Não não vejo nada." (imaginem a minha cara de parva a olhar para a mulher)
- "O meu olho está inchado!!! Pela minha experiência de certeza que é conjuntivite!"
- "Ahhh o olho... qual olho mesmo?" (Edemaciado? Devia ter levado os óculos então). Sem febre e sem dor, óbvio que dei pulseira verde, como manda o protocolo de Manchester.
- "Verde??? Mas está a brincar comigo??"
- "Desculpe? Acha que o seu caso é mais urgente que um paciente lá dentro com enfarte?"
- "Eu sei muito bem como é que vocês aqui funcionam!! Eu também sou enfermeira oh!! Já trabalhei aqui neste hospital muitos anos pá!!"
- "Óptimo! E é mesmo por ser enfermeira que você deveria entender os regulamentos e protocolos de um serviço de emergência. Demorará em média umas 4 horas para ser atendida. Pode aguardar na sala se faz favor."
PUM PUM, era o som que ouviriam se a mulher tivesse uma arma na mala. Mas lamento, pessoas que não sabem respeitar e ainda por cima de nariz empinado não combinam comigo. Quando ela reparou que troquei de posto com o meu colega, ela fez nova inscrição. O meu colega chamou-a e eu achei meio estranho, avisei-o que eu já lhe tinha feito a triagem. Adivinhem... entrou a chorar a dizer ao meu colega que estava com muita falta de ar desde que acordou. Passar de uma conjuntivite para dispneia vai uma grande distância. Agora expliquem-me, como ter paciência com pessoas assim? Não dá, claro que não dá! 
Outra história, desta vez compreensiva.
- "Bom dia! O meu nome é Verónica e sou aluna de enfermagem, o que a trouxe à emergência?"
- "Bom dia. Ontem à noite estava a estudar para o exame de hoje e comecei com muitos vómitos, dores de barriga e diarreia..." (ela agarrada à barriga)
- "Humm... não estavas preparada para o exame e queres uma declaração como justificativa de falta?"
A rapariga largou a barriga e deixou-se rir.
- "Como sabe???"
E é isto. Nestas situações podem vir à emergência que eu ajudo. Já passei pela mesma síndrome pré-exame e nem imaginam as vezes que uma declaração era o suficiente para me salvar a vida.