114º dia - Último dia de estágio

Durante o curso sempre pensei que não ia aguentar o último estágio por ser tão longo, e eu não costumo lidar bem com supervisões e avaliações constantes, por ser demasiado perfeccionista acabo por me desmotivar facilmente com uma crítica menos boa. Mas aqui foi diferente. Lembro-me do primeiro dia de estágio como se tivesse sido na semana passada, e foi há 4 meses. Lembro-me da primeira vez que entrei em ambos os serviços e vi pela primeira vez as minhas duas supervisoras. Uma delas enfermeira chefe e a outra com imensos anos de serviço e uma exigência de nível 100!! Na altura pensei "estou completamente lixadinha da vida". Tretas. Foram duas enfermeiras excepcionais, cuidaram de mim, e mais que supervisoras foram minhas amigas! No final do primeiro mês já tínhamos uma relação informal entre muitas brincadeiras, inclusive conversas pessoais. E isso no fundo fez-me bem, aliviou-me a tensão, deixou-me à vontade para questões e dúvidas. Formei uma família naquele hospital e ter que dizer Adeus hoje foi bastante difícil. A exigência de ambas as enfermeiras fez com que eu melhorasse as minhas competências e aprendesse novas. Considero ambas a "enfermeira ideal", vejo nelas aquilo que eu quero ser. Absorvi cada ensinamento, cada aprendizagem como uma esponja. Quero ser como elas!
No final conseguiram surpreender-me com mimos, as enfermeiras do ambulatório de quimioterapia ofereceram-me essa caneca linda aí em baixo! Uma das pacientes fez um porta-chaves para mim e nunca me esquecerei das palavras dela "sempre que tiveres em baixo lembra-te de mim, pois quando eu estive em baixo lembrei-me sempre do que você fez por mim. Muito muito obrigado por ter cuidado de mim com tanto amor quando eu não acreditava não aguentar tudo isto". Como querem que não seja sensível e não chore? Chorei rios de lágrimas hoje. Descobri que os melhores abraços são dados pelas pessoas que lutam diariamente por mais um dia de vida. Os melhores conselhos são dados por esses heróis. E agora, mais que nunca, orgulho-me tanto das minhas duas estrelas que já partiram devido a doença oncológica. Agora sim, eu sei e percebo tudo aquilo que eles passaram, sofreram e lutaram.  Custa-me que eles não estejam presentes para verem que consegui, que já sou enfermeira, que podia cuidar deles... 
Não quero ir embora, não quero deixar a família que criei aqui. Sair pela última vez da porta do hospital doeu muito. Sentei-me num banco do jardim a olhar para aquela "casa", a relembrar-me do primeiro dia, a relembrar-me todos os momentos que ali vivi, o quão sortuda sou por ter tido esta oportunidade. Eu vou voltar, prometo.

Chega a hora de agradecer às pessoas que fizeram parte deste percurso perfeito.
- Tenho de agradecer à Prof. Dra. Soraia Dornelles, porque me deu a oportunidade de realizar este intercâmbio e se disponibilizou para me orientar. Sem ela eu nunca teria realizado este sonho! 
- Às enfermeiras orientadoras, Jaçany Borges e Julieta Oro, pela maneira como me acolheram, pelas suas personalidades fortes, e suas características humanas invulgares, tendo ambas sempre me encorajado neste caminho e me ensinaram a fazer dos nossos encontros um desafio de autenticidade e reciprocidade. Devido às suas ricas sabedorias e rigores demonstrados, ao longo das 15 semanas, fui aperfeiçoando o cuidar com competência e sentido ético. Dois seres humanos importantes para mim, com quem aprendi e cresci enquanto pessoa e, principalmente, como futura enfermeira.
- A todos os restantes profissionais e pacientes, embora com mais contacto com uns do que outros, todos contribuíram para que estes meses corressem da melhor forma possível, e por isso mesmo o meu sincero,

OBRIGADO! Levo-vos no meu coração.