78º dia - O reencontro

Não dormi nada de jeito. Sempre a contar as horas que faltavam para o avião dele aterrar. Andava pelo hospital a seguir o trajeto do avião em tempo real através da aplicação FlightAware. Estive presente na aula, por acaso sobre sinais vitais, e embora não tenha ouvido nada a professora avaliou o meu pulso e registou quase 100 batimentos por minuto em repouso, perguntou-me se eu estava nervosa e se me estava a sentir bem. Só por aí imaginem. À medida que me aproximava do aeroporto o meu músculo cardíaco aumentava a frequência dos batimentos. Conheço-o há 10 anos, estou apaixonada por ele há 5 anos e meio, namoramos há quase 4, e sentia que era a primeira vez que o ia ver. Não conseguia acreditar que ia ter a oportunidade de o ter comigo aqui no Brasil, mostrar-lhe os lugares mágicos da ilha, finalmente poder observar o nascer e pôr-do-sol com ele, perdermo-nos entre trilhas, dunas e praias. Apresentar-lhe os meus amigos, a minha universidade, o meu hospital e a minha casa.
Tenho a plena noção que não é qualquer um que atravessa o oceano só para matar saudades. Não é qualquer um que se sujeita a trabalhar o dobro das horas por dia, que pega no dinheiro ganho com sacrifício e compra um bilhete até ao Brasil. Eu tenho a sorte de o ter comigo. Eu tenho a sorte de ser amada por um ser humano assim. Eu jamais irei conseguir agradecer-lhe este gesto como ele merece. Demorei cerca de um ano e meio a conquistar esta personagem, sofri, rastejei, e não me arrependo. Depois da tempestade veio a bonança, lutei e consegui o danado.
Nunca ninguém me fez sentir tão bem como ele faz, preocupa-se comigo em todos os sentidos. Cuida de mim. Não permite que eu chore. Larga tudo só para me fazer feliz. Ensina-me inúmeras coisas, tenho crescido imenso. Com ele não me sinto uma mera rapariga, sinto-me mulher. Não gostamos de fazer planos futuros, mas gostamos de fazer juras. Quando sonhamos, sonhamos juntos. Ele quer aquilo? Eu compro. Eu quero ir ali? Ele leva-me. Devo-lhe o mundo, aliás, desejamos o mundo. A maior jura que fazemos não é o amor eterno, mas sim viajarmos juntos pelo mundo. Nunca dissemos um "amo-te para sempre" nem um "nunca te vou deixar". Somos um casal consciente de que não precisamos de promessas para ficarmos seguros e sermos felizes. O presente é o mais importante, o futuro logo se vê. O que tiver que acontecer acontece, o importante é não nos arrependermos de atos e palavras ditas. 

Duas amigas minhas, a brasileira Rob e a canadense Mel, acompanharam-me no nervosismo e gravaram o momento do reencontro.
Embora tenha dormido estes meses com uma t'shirt dele o cheiro foi-se perdendo. Quando o abracei, voltar a cheirá-lo foi uma sensação enorme de alívio. O abraço apertado e aconchegante dele valeu por tudo. No ônibus, vim o caminho todo até casa a observá-lo, ainda a questionar-me se ele era mesmo real e se estava ali comigo. Foi um tanto estranho, mas soube tão bem. 
Tive a prova que a saudade é capaz de aquecer o que a distância tenta arrefecer.

Agora vou dormir feliz... em conchinha. Boa noite a todos!