39º dia - Miss my brother

Partimos da Foz do Iguaçu por volta das 23h de sábado e chegámos às 14h de domingo. Uma viagem cansativa que parecia interminável, para terem uma noção é como irem de Lisboa a Paris de carro. Para piorar, chovia a potes e o nevoeiro impedia-nos de ver a estrada. Mal cheguei a casa, caí na cama e dormi umas 12 horas seguidas, para quem tem por hábito dormir 5 horas por dia, é muito! Sem querer ser convencida, li um estudo onde revelava que as pessoas que necessitam de menos horas de sono são as mais inteligentes. Eu cá acredito no estudo. O meu irmão precisa de dormir 12 horas por dia e não é inteligente por isso faz sentido (ele vai ler isto, vai ofender-me no chat do facebook e bloquear-me durante 3 meses). 
Podia dizer que eu e o meu irmão temos uma óptima relação seja de entreajuda ou empática mas estaria a mentir... na verdade a nossa relação piorou quando ele entrou na adolescência e passou de parvo a muito parvo. Eu também não era melhor e por isso chocávamos muitas vezes, também porque temos um feitio muito idêntico. Se não fosse a diferença de 4 anos poderíamos ser gémeos, há quem diga que somos muito iguais fisicamente e mesmo na forma de falar, certas expressões ditas. Neguei durante muito tempo mas desisti, não há ninguém mais parecido comigo se não o meu irmão. Afinal de contas temos o mesmo sangue e... é meu irmão e basta. Nós temos mais em comum do que eu imaginava, somos ambos vaidosos, conseguimos passar 24h num shopping, pedimos conselhos um ao outro e geralmente nisso estamos sempre de acordo, o que é raro; partilhamos algumas roupas, embora eu não o deixe vestir as minhas sweatshirts eu visto as dele e vice-versa; somos bastante entusiastas quando contamos alguma novidade; passamos mais de metade do dia a rir às gargalhadas; gostamos dos mesmos géneros musicais; adoramos preparar surpresas e pregar partidas às pessoas no meio da rua; divertimo-nos com coisas banais, como fecharmo-nos dentro de uma caixa de papelão e sermos mandados pelas escadas a baixo; por vezes fazemos mais pelos nossos amigos do que por nós próprios, somos capazes de nos levantar da cama à 3h da manhã para servir de ombro amigo; jogámos ambos basquetebol durante muitos anos; aprendemos a tocar guitarra; andámos ambos na equitação; amamos animais, se nos fosse permitido já tínhamos adotado dezenas de animais que salvámos; a única coisa que nos diferencia é o futuro profissional, eu amo a área da saúde e ele desmaia só de falar em sangue. 
O puto já vai fazer 18 anos... nem acredito que já vai entrar para a universidade. Seja qual for o curso que escolher vai ter sucesso, vos garanto. Bem lá no fundo escondo dele o orgulho que tenho nele. Sempre quis um irmão e os meus pais deram-me um, não os perdoava se fosse filha única. E não perdoava o meu irmão se ele fosse diferente do que é, apesar de todos os defeitos gosto dele assim, porque os defeitos dele são os meus defeitos. Tenho uma forma de ver a vida um pouco diferente mas sei que é da idade e que daqui a 4 anos ele saberá do que falo quando o chamo a atenção. 
Já desde há alguns anos que ele me chama pelo nome mas por vezes ainda deixa escapar um "mana anda cá" e eu derreto-me toda! 
A nossa relação tem vindo a melhorar desde que me mentalizei que ele já não é um miúdo. Ele já não me obedece, ele chega a casa mais tarde que eu até, já está maior que eu, é mais inteligente que eu (confesso), e já começa a estabelecer objetivos e metas a curto prazo na sua vida. Prometi cuidar dele desde a primeira vez que lhe peguei ao colo (apesar de já ter sido suturado duas vezes por minha causa, no pulso e na cabeça, sim, coitado...), indiretamente, sem ele saber, ainda cuido dele e vou cuidar até não me restarem forças. Preocupo-me. Nada me deixa mais satisfeita ao saber que ele está feliz, pois quando está com crises de mau humor ninguém o aguenta lá em casa! A verdade é que esta distância de 8000 km está a fazer-nos bem e conseguimos bater um recorde: há exactamente 7 semanas que não discutimos! Desde que parti de Portugal portanto. 
Sempre desejei oferecer-lhe uma viagem, não sei porquê, mas sempre tive vontade de mostrar um pedaço do mundo ao meu irmão. Quando tiver o meu ordenado pego nele e deixo-o escolher o destino. (se estás a ler isto aviso já que ainda não é este ano não, será quando menos esperares). Já vivi diversos momentos aqui no Brasil em que me lembrei dele e em como ele ia adorar. 
Nunca pensei dizer isto mas... de todas as pessoas que deixei em Portugal é do parvo do meu irmão que mais sinto falta.

PS: Já lhe tentei dizer que foi adoptado mas não acredita.






2007