15º dia - 1º dia de estágio

Agora sim podem parar de me invejar, a boa vida acabou. A partir de agora tenho que me levantar às 5h30 da manhã, não só para ver o sol nascer mas também para cuidar dos outros. Ai de vocês que se queixem por terem que acordar às 8h! Fiquei a saber que irei estagiar no Hospital Universitário no serviço Clínica Médica II e no ambulatório. Até saber isto fiquei mesmo muito feliz mas quando sigo a professora e ela entra no ambulatório de quimioterapia, aí sim, travei. Não é que eu não goste, pois eu adoro a área, simplesmente não queria passar 4 meses a estagiar numa área onde os meus avós passaram os seus últimos meses de vida. O problema não é trabalhar nesse serviço, o problema é trabalhar nesse serviço e não ter a quem me segurar quando as memórias me invadirem e ficar sem chão. Considero-me uma pessoa forte no geral mas quando o assunto é família misturado com saudade podem ter a certeza que sou a pessoa mais frágil do mundo. O cancro tem perseguido a minha família e não sei como, sinto que me atingirá a mim mais tarde ou mais cedo. A genética tem um peso considerável. Vou dar o meu melhor e cuidar de todos eles transmitindo muita força e optimismo. Hoje em dia cancro já não é sinónimo de morte mas há sempre risco, dependendo do estadio e tratamento. Não consigo imaginar o psicológico de uma pessoa com a doença ao saber que tem os dias contados, que tem tantos sonhos por realizar, que não sabe como e quando se despedir, que não sabe se o melhor é continuar com a quimio e sofrer os terríveis efeitos secundários ou desistir e terminar com o sofrimento. Ontem faleceu um rapaz de 15 anos com leucemia quando ninguém esperava, quando ele dizia estar melhor. Não consigo imaginar a dor de ter que partir e ver alguém partir. Não consigo aceitar esta forma de morte, não me conformo. Ninguém merece. Admiro a força de todas as pessoas que têm ou já tiveram a doença pois neste momento a maior guerra no mundo é mesmo entre um ser humano e um tumor. Nem sabem a quantidade de sonhos que tenho com a cura milagrosa para o cancro.
Limpando as lágrimas e mudando de assunto... Fiquei na clínica médica hoje e hei-de ficar durante a próxima semana para me ambientar e perceber o método de trabalho do enfermeiro, para a outra semana irei então para a quimioterapia. 
Quanto à Clínica Médica II estou apaixonada, pelo ambiente, pelo método de trabalho e principalmente pelas pessoas, destacando a equipa de enfermagem! Todos me deram as boas-vindas e mostraram-se disponíveis para me ajudar em tudo o que precisasse! Em Portugal já estive em serviços onde o ambiente era pesado, aqui não, tudo muito tranquilo e divertido, nunca descuidando o trabalho.
Quanto à profissão, em Portugal temos apenas os Enfermeiros, aqui no Brasil temos os Enfermeiros e os Técnicos de Enfermagem. Os Enfermeiros aqui ficam responsáveis pela burocracia do serviço (processos, evolução dos pacientes, altas, histórico de enfermagem, passagens de turno, etc), realiza as técnicas mais invasivas (algaliações, entubações, quimioterapia, etc) e supervisiona os Técnicos de Enfermagem. Estes Técnicos estão responsáveis pela medicação, higienes, alimentação, registos de enfermagem, pensos, cateteres venosos periféricos, diureses, etc. Em Portugal o Enfermeiro faz tudo o que o Enfermeiro brasileiro faz mais o que os Técnicos fazem, e ainda recebem menos do que ganham aqui! O ordenado aqui varia muito mas alguns chegam perto dos 2000€. Eu estou a fazer o trabalho de um Enfermeiro mas sinto necessidade de fazer também o trabalho do Técnico para não estar tão parada, portanto vou articulando as duas coisas. Quanto ao fardamento, aqui os alunos de enfermagem têm que usar calças brancas, tênis brancos e jaleco (bata), e os enfermeiros vestem a sua farda, seja de que cor for, é à escolha deles, podem até usar só bata,  nem a universidade nem o hospital disponibilizam farda como em Portugal, é um ponto negativo., pois o risco de contaminação eleva tanto no serviço como em casa. Quanto às passagens de turno, em Portugal os enfermeiros passam o turno somente para enfermeiros, aqui o enfermeiro passa o turno numa sala de reuniões para toda a equipa multidisciplinar, desde o fisioterapeuta à nutricionista. Um ponto bastante positivo! Todos os profissionais que trabalham no hospital têm direito a almoço e jantar, ou seja, não se paga. E sabem quanto custa uma refeição no restaurante universitário? 0,50 cêntimos com self-service e a comida é óptima!
Para quem pensa que aqui no hospital não há condições nenhumas que se engane. É o hospital com melhores condições onde já trabalhei. Todas as camas são eléctricas, os quartos e serviço bem limpo e luminoso, materiais de topo... "Ah mas os enfermeiros aí não respeitam os princípios da assépsia", mentira. São muito mas muito meticulosos! Falando no geral de Floripa, atenção, nas outras zonas não sei como é. Mas era bom que os portugueses começassem a desmitificar a ideia de que o Brasil é um país do terceiro mundo e muito perigoso. Forianópolis de terceiro mundo não tem nada! Quanto ao perigo, devemos ter cuidado como em qualquer outra grande cidade, por exemplo, acho a cidade de Lisboa muito mais perigosa.
Resumindo e concluindo, estou maravilhada! Quero ser o mais autónoma possível e aprender o máximo que puder. Estou a terminar o curso de enfermagem para cuidar de ti, não de mim. E ao sentir que estou a cuidar dos outros já estou, de forma indirecta, a cuidar de mim, contribuindo para a minha felicidade e bem-estar.

Sorriso de orelha a orelha