Os enfermeiros também choram

Dedicado a todas as pessoas que se queixam da "frieza" de alguns enfermeiros. Dedicado a todos os meus colegas de curso, enfermeiros e futuros alunos de enfermagem que irão entrar este ano. Leiam este texto, escrito por um enfermeiro, Ricardo Fonseca.

«Sou enfermeiro há alguns anos, sendo a profissão que escolhi para me dedicar durante toda a vida, ser gente que cuida de gente.
Tendo já vivido inúmeras experiências marcantes, entristece-me as frases sussurradas por algumas pessoas sobre os sentimentos dos enfermeiros, sobre a sua desumanização e sobre a frieza com que lidam com algumas situações mais complicadas.
Apraz-me dizer, para possível espanto de muitos leitores, que os enfermeiros também choram, por mais que em muitos casos deixem transparecer para os seus utentes que possuem muros impenetráveis em seu redor.
Sim, os enfermeiros também choram, apesar dos conselhos superiores que receberam durante a sua formação sobre a gestão de emoções e sobre o “dever” de não se deixarem influenciar pelas situações e muito menos se apegarem em demasia aos seus doentes.
É uma utopia pensar que os enfermeiros são uns seres especiais que possuem um interruptor capaz de desligar a sua corrente emocional incapacitando-os de se envolver, de serem afectados pelas circunstâncias do seu cuidar.
Os enfermeiros também choram, não o fazendo em frente aos seus doentes receando perder a capacidade profissional do cuidar, mas é de um grande engano, pois é necessário criar empatia, é preciso lidar com o que se sente no contexto adequado.
Muitos enfermeiros transportam durante muito tempo as sequelas das lágrimas contidas, dos sorrisos escondidos, da dor acutilante que partilham com os seus utentes e não partilham as horas de choro que passam após sair do seu local de trabalho.
Os enfermeiros choram, lidando da melhor forma possível com as perdas, com os fracassos que acompanham diariamente, com a angústia de não poder fazer mais e melhor naquele momento em que é tudo necessário. Choram em silêncio, não querendo fomentar o sofrimento de quem cuidam, querendo ser um pilar de força, segurança, confiança e acima de tudo, de esperança no futuro.
Quando contactarem com um enfermeiro austero, com olhar e semblante carregado, questionem-se se não estará a sofrer em silêncio, em vez de o culparem pela sua aparente impotência e falta de humanidade. Recordem-se que além da vida profissional, os enfermeiros por incrível que pareça, têm a sua vida pessoal com problemas semelhantes aos de toda a gente, inclusive daqueles que cuidam.
Os enfermeiros choram, por mais surpreendente que possa ser esta constatação, apenas não permitem que as lágrimas escorram pela face em determinados momentos.
A enfermagem é uma área de cuidados, muito específica, pelo tempo passado com os doentes, pela dedicação que lhes é oferecida e quando em muitos casos o enfermeiro não está presente, pode significar que o mesmo não encontra as palavras certas para dizer, os gestos adequados a demonstrar. De todo quer dizer que se está a afastar do seu utente e muito menos que não se preocupa com ele.
Sim, os enfermeiros também choram! Já tinhas pensado nisso?»

Eu já chorei. Muitas vezes.