Confessions of a nurse

Iniciei um novo tópico "Nursing", enquanto o novo blogue "The v-nurse" está em construção.


Na sexta-feira passada terminei o estágio na Unidade de Cuidados Intermédios do Serviço de Urgência, em Faro. Gostei da unidade e aprendi bastante lá mas sem dúvida que uma unidade de doente crítico não é para mim, todos os cuidados prestados à pessoa doente vão até ao mais pequeno pormenor para que tudo seja feito da maneira mais correcta possível. Tantas máquinas/aparelhos à volta da pessoa (o complicado de lidar não são as máquinas mas sim os alarmes das mesmas, que tocam a toda a hora sem razões aparentes!!). As pessoas facilmente descompensavam, atrasando o nosso plano, e ao invés de sair à meia-noite, chegava a sair à uma e tal da manhã (não nos pagam essas horas). Ainda nem terminei o curso e já acho isto demais para a minha cabeça. Quando fazia noites então, era o descalabro. (Sair à noite é fácil, quero ver jovens ficarem de plantão no hospital sem fechar o olho por 5 segundos, sem cerveja por perto claro!). Prefiro mil vezes um Serviço de Urgência, onde os cuidados são prestados mais rapidamente, mas igualmente eficazes, de modo a diminuir a fila de espera e a ansiedade das pessoas. Temos que ter um olho excelente sobre a pessoa doente de modo a despistar/identificar possíveis problemas, passamos os turnos a correr de um lado para o outro, o stress é tanto mas... é isso que eu gosto. Não tive a oportunidade de estagiar no SU mas faço intenções de passar por lá. Aliás, à medida que vou terminando os semestres vou tendo mais certezas que onde gostaria mesmo de trabalhar era no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), socorrer as vítimas no momento, agir rápido, isso sim, cativa-me, seria o delírio!! 
Esta semana comecei num serviço novo, no serviço de Nefrologia. Este é completamente diferente do anterior, deixo de estar numa unidade para estar num serviço de internamento, pessoas doentes mais estáveis e independentes, embora possa também haver intercorrencias, como ontem, que faleceu um senhor (Que descanse em paz meu bem ). Muitas vezes questionam-me se a morte não é difícil de encarar... claro que é mas à medida que vamos assistindo a estas situações, vai fazendo cada vez mais parte de nós, não digo que se torna banal, pois seria incorrecta. Custa sempre saber que aquele corpo pertenceu a alguém e que agora se encontra vazio. Enquanto preparo o corpo penso sempre em como terá sido o passado da pessoa, a sua profissão, quantas outras pessoas terá ajudado, e será que sofreu muito? Vai na volta e lembro-me dos meus avós que partiram, pergunto-me se trataram bem do corpo deles como eu trato o corpo destas pessoas, de maneira a não magoá-los, como se ainda sentissem... A parte mais difícil? Lidar com a reacção da família. Eu choro, choro com eles, é inevitável, não consigo. Na verdade acho que isso até acaba por consolá-los, eu sinto. E não, isto não dá cabo de mim, tento não levar os assuntos do hospital para casa. 
Foi o curso que escolhi, foi isto que eu imaginei, foi isto que eu sempre quis. Nada me deixa mais satisfeita do que chegar a casa sabendo que fiz os possíveis e impossíveis para deixar os meus cutxis-cutxis confortáveis, prestando-lhe todos os cuidados! Aposto muito na relação empática com as pessoas doentes, elas precisam, muitas delas encontram-se abandonadas pela família no hospital (aí sim, revolto-me!). Às vezes sonho mesmo que construo um lar para todas essas pessoas, oferecendo todos os cuidados necessários. Eu sonho muito, demasiado até. Melhor: tenho o privilégio de, até hoje, ter conseguido realizar todos os meus sonhos.

Um pequeno desabafo antes da hora de descanso. Amanhã estarei lá para mais um turno. Uma boa noite para quem fica de plantão, e para quem está com exames, muito boa sorte!