True love story


Deixo aqui uma história real à qual tive a honra de vivenciar no meu 3º ensino clínico do curso de enfermagem. Já tinha publicado no facebook, mas penso que aqui é o local mais apropriado.
 
Tão pequena, tão leve, uma ternura. Assim era ela. Deitada no leito em decúbito lateral direito, sorrindo para mim. Assim estava ela. Tão apaixonante, tão só. Assim se sentia ela.
Apenas (ironia) mais uma Senhora com S grande, abandonada como se de uma boneca de trapos se tratasse. Cativou-me pelo seu sorriso enternecedor, aqueles olhos tão brilhantes, tão jovens, olhos de quem já viu, olhou e observou a Vida.
Um abraço e um beijinho na testa - sempre me ensinaram que é um gesto de respeito - para começar bem o turno. Após longas horas de trabalho e o cansaço a apoderar-se de mim, caminhei até ao quarto da Senhora:
- Então, como se sente?
- Bem… mas, ele hoje ainda não me ligou! – lembro-me tão bem da voz, tão serena.
Questionei sobre quem é que ainda não tinha ligado, ao qual ela me responde “ah… um amigo, o António. Será que ele já morreu?? Esqueceu-se de mim??”. Percebi que era alguém deveras importante “Tenho aqui o meu telemóvel mas a Senhora não deve saber o número…”, fui imediatamente interrompida “96...”. Estão a ter a noção? Uma senhora de 89 anos lembrar-se de um número de telemóvel??
Bem adiante, liguei para o número e atendeu-me uma voz usada, rouca, confirmando que era o senhor António (e eu a não querer acreditar). Passei o telemóvel à Senhora e, quando ela ouviu a voz dele, se vocês vissem aquele sorriso…
Resumindo: Aquele senhor ligava-lhe todos os dias, ela desesperava quando passava da hora, o medo de o perder atormentava-a. Aquele senhor encontrava-se em Setúbal e a Senhora em Beja, falavam somente por telemóvel. Este senhor foi o primeiro amor da vida da Senhora. Aquele casal foi impedido de casar pelos pais. Ambos casaram com pessoas diferentes, ambos perderam o companheiro e… após 40 anos voltaram um para o outro.
O amor verdadeiro é, definitivamente, imortal! No entanto, nós não o somos. Após uma semana a Senhora acabou por falecer. Jamais me esquecerei daqueles olhos, tão brilhantes, tão jovens... Descanse em paz