26 junho 2015

"O alto preço de viver longe de casa"

"Muito além do valor do aluguel.

Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.

Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. O patinete. A Harley. O Boeing 737. E a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando a gente percebeu que poderia ir sem data para voltar.

E assim começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.

A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessa virão.

Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?

Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do whatsapp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?

Será que a vida será sempre esta sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja? Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa? Será teste, será opção, será coragem ou será carma?

Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo? Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?

Eu sei que não é fácil. E que admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia.

Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo pra ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai.

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado. 
Keep walking."


O contra-regresso

Regressei em grande amigos! E quando digo em grande, foi em grande mesmo.
Fiz escala em Porto Alegre e o voo atrasou, faltavam 10 minutos para o voo da TAP partir para Lisboa. Mal saí do avião fui a correr direito ao check-in e encontro um rapaz a correr em minha direcção "é a Verónica??"- mas que raio?? Como sabe o meu nome? - "sim, sou, porquê?", "O avião da TAP está à sua espera!!!!"
Pegou em mim que nem super homem, fez o check in por mim e levou-me até à zona de embarque pelos corredores privados lá deles. Tive que passar ainda pelo detetor de metais, e com todo o azar que tenho óbvio que alarmou e tive que ser revistada da cabeça aos pés! Depois pediram-me documentos da polícia federal que eu tinha tratado há 4 meses atrás, acham que eu me lembrava? Mais uma eternidade à procura dos documentos. Quando finalmente ia entrar no avião tinha o piloto à porta de mãos atrás das costas "é a menina Verónica?", "sim, sou, peço desculpa pelo atraso!!" "A menina já não pode embarcar", "está a brincar comigo?"- claro que estava. Mal entrei no avião tinha os passageiros todos a fitarem-me com olhos de ameaça! Cruz credo... nem ao banheiro fui a viagem inteira com medo deles.

Dormi 7 horas das 10 horas de viagem, passou num ápice. A aventura podia acabar por aqui mas quem me conhece sabe que era estranho demais. Cheguei ao aeroporto de Lisboa e percorri aqueles corredores infinitos até à recolha de bagagem, pensei "tiveram 10 minutos para mudarem as malas de avião, duvido muito que tenham tido tempo de encontrar e transferi-las". Esperei ansiosamente que as minhas duas malas surgissem no tapete.... 5 minutos, 10 minutos, 15 minutos e naaaaada. Prestes a ir aos perdidos e achados olho para cima para o televisor e leio "Istambul". Espera lá aí... Eu não vim de Istambul, olhei para trás e lá estavam as minhas duas malas sozinhas ali às voltas no tapete anterior. Eu juro que tento ser uma pessoa minimamente concentrada mas há sempre algo que me distrai por segundos. Por isso mesmo, a porcaria não podia terminar aqui.
Fui almoçar com os meus pais ao Fórum Montijo e quando vi o valor de dois minis pratos viro-me para a mulher "45 reais dois pratos destes???", o meu irmão só queria um buraco onde se enfiar. Foi instintivo, calculo automaticamente quanto dá em reais e aquele valor era monstruoso! Isto não acaba por aqui não. 
Antes de sair do Brasil levantei 10 reais para que pudesse ter uma nota como recordação. Tão não é que paguei um top de 10 euros na Stradivarius com a nota de 10 reais, que vale 3 euros?? Percebi isso no dia seguinte e a empregada nem se apercebeu!! Consegui o contacto da Stradivarius e pedi para falar com o responsável, contei o incidente e pedi desculpa.
Ele: "Pois, nós no final do dia no fecho da loja reparámos na nota e já tínhamos andado a ver nas câmaras quem teria sido. Agradecemos a sua sinceridade!"
Eu: "Não precisa de agradecer, mas eu ficaria muito agradecida se me devolvessem a minha nota de 10 reais, e pago o que devo claro" 
Ele: "Mas menina, já não podemos devolver a sua nota. Agradecemos imenso a sua sinceridade e por isso mesmo nem precisa de devolver o montante!"
Eu: "Desculpe?? Eu liguei para recuperar a minha nota. Eu quero a minha nota, é uma recordação de grande valor sentimental!"
Ele: "A sua nota já está no Banco do Brasil menina!" 
Eu: "Como assim???"  
Eu queria a maldita nota!!! E porque raio confundi as notas?? Amigos portugueses que ainda estão no Brasil, por favor tragam-me uma nota de 10 reais que eu dou-vos os 3 euros, hunf.

Quanto à adaptação, quando saí do aeroporto tive a sensação que estive apenas 2 ou 3 semanas fora. Entrar no meu quarto foi meio estranho, parece que foi tudo um sonho e que agora acordei. O que me faz acreditar que lá estive são os amigos que lá deixei e as fotografias que tirei. Tenho passado os dias meio deprimida sim, ainda me estou a ambientar...


22 junho 2015

117º dia - Adeus Floripa

Chegou o dia. Chegou a hora de pegar nas malas e voltar para casa. Parece que estive fora apenas 2 ou 3 semanas. Lembro-me perfeitamente do momento que fiz as malas para vir e agora já estou de volta. Como? O tempo passou rápido demais. Voltaria atrás e viveria tudo de novo. Aquela ansiedade de há 4 meses transformou-se em agonia, o coração não está a bater tão rápido agora. Perdoem-me, ainda não tenho saudades de Portugal, ainda. A questão é "onde eu pertenço afinal?". Tenho medo de regressar à monotonia da vida que levava em Portugal, tenho medo de não me readaptar. Estes últimos meses foram os melhores da minha vida e nada apagará isso.
Aos novos intercambistas portugueses que já estão a acompanhar o blog, fixem isto: deixem os receios em Portugal, não precisam disso aqui. A ilha é mágica e as pessoas são adoráveis. Aproveitem cada momento, acordem cedo e vão ver o nascer do sol à praia sempre que puderem. Vão viver a melhor experiência da vossa vida! Prometo-vos.

Obrigado Floripa por ter sido tão bem recebida, tão bem cuidada. Obrigada pelo abrigo e porto seguro. Obrigada pelo crescimento que me proporcionaste em todos os níveis. Obrigada pelas melhores praias, trilhas e amigos. Obrigada a quem me estendeu a mão e me acolheu como se pertencesse ao país. Obrigada pela oportunidade de viver a maior e melhor experiência da minha vida. Eu volto, eu prometo. E está provado, o que eu prometo eu cumpro.
O Adeus foi silencioso e doloroso. O caminho até ao aeroporto fez-me recordar o primeiro caminho, no primeiro dia. No momento da descolagem, ver a minha ilha de cima, iluminada e tão bonita... Eternamente apaixonada por ti Floripa. Não consegui conter as lágrimas. Não me consigo conformar com a minha partida. Eu quero ficar, deixem-me ficar...
Tento focar-me nas coisas positivas, afinal de contas vou voltar a abraçar os meus pais, a minha família, amigos e namorado. Matarei saudades deles, da cidade, da comida da mãe, do cheiro da casa... mas aí vai bater uma forte saudade de Floripa, da alegria do país, do meu quarto, do cão que me esperava todos os dias no início da rua, das minhas colegas, do hospital, dos meus pacientes, das praias paradisíacas, das trilhas, dos amigos, do pão de queijo, do açaí, da tapioca e água de côco... nessas alturas vou precisar de estar sozinha em frente ao mar com a certeza de que Floripa está só ali do outro lado do oceano.

Não deixei nada além de pegadas, não matei nada a não ser o tempo e não levo nada além de fotografias. Até um dia Floripa.
É com este post, dentro do avião de regresso, entre lágrimas, que passo a última página do livro.
Foi um prazer galera.

FIM

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21 junho 2015

116º dia - Cacupé e Sambaqui

Hoje fui despedir-me da família que me acolheu quando cheguei sozinha e desamparada ao Brasil. Agradeci-lhes do fundo do coração por tudo! Fizeram um churrasco para mim e almocei por lá. No final levaram-me até Cacupé e Sambaqui, duas zonas de Floripa que não conheci. Lindo demais!! Casas coloridas com vista para a baía, palmeiras, relva e areia fina. Até no último dia a ilha consegue surpreender-me!
Acabei por ir novamente ao cinema com os tugas ver Jurassic World em 3D.


Aproveito para partilhar uma mensagem de uma brasileira querida que me marcou de alguma forma:

"Verónica, acabo de ler teu post sobre medula óssea. Tomada pela minha tpm tenho que te falar! Incrível como pequenos atos, gestos e/ou palavras podem nos tocar tão profundamente em fração de segundos! Como conversávamos no outro dia, é uma pena que tenhamos cruzado nossas vidas só no final da tua estadia aqui em Floripa e na velocidade da luz, mas quero registar pra ti que teu existir é notório em teus posicionamentos sempre cheios de solidariedade, acolhimento e justiça, fundamentais no respeito ao Outro. Já tinha percebido isso na tua fala em sala de aula, e no modo como aproveitas a vida e contagia aos outros compartilhando fotos e testemunhos. Confesso que só me encantei de vez ao ler teu post sobre tua audição (assunto do qual entendo melhor por profissão e ao qual sinto enorme empatia mesmo sem vivencia-lo na pele)! Estou como tu num momento de troca de fases de vida, e teu simples exemplo de existir me comoveu e motivou mais ainda no seguir em frente nas adversidades e medos do por vir, a ter ânimo e desprendimento para aproveitar as novas oportunidades e contextos. Quero te agradecer o compartilhamento de energia boa; desejar uma boa viajem de volta, muitas coisas boas e sucesso nessa etapa nova e nas outras que se sucederão, e que continues assim determinada e alegre! Espero que possamos nos encontrar novamente em breve, darei notícias! Abração e 'jinho'"

Como é que querem que regresse? Assim não dá! :'(

115º dia - Enfermagem ❤

Hoje fui tratar da burocracia final, assinar os papéis finais para validar o estágio e a disciplina que fiz aqui. Ontem foi a avaliação final de estágio e não poderia ter corrido melhor. Estar em frente à professora e enfermeiras, ouvir todo aquele discurso acerca de mim é algo que nunca vou esquecer, pelas palavras ditas, elogios rasgados e no final ao invés de ouvir o tal "a Verónica será uma excelente enfermeira" ouvi finalmente um "a Verónica é uma excelente enfermeira". Ninguém imagina o quão isso me soube tão bem ouvir, 4 anos a batalhar para ouvir estas palavras e finalmente ouço-as. É realmente gratificante e não poderia estar mais feliz!! É o primeiro estágio que termino e penso "estou pronta!", estou pronta para começar a trabalhar a sério. Para muitos é apenas uma licenciatura, é apenas uma profissão, para mim não. As crianças sonham em ser princesas, eu sonhava ser enfermeira. 



À tarde fui ter com os tugas, comer o último açaí brasileiro (por enquanto)! Vou ter tantas saudades deste grupo...





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114º dia - Último dia de estágio

Durante o curso sempre pensei que não ia aguentar o último estágio por ser tão longo, e eu não costumo lidar bem com supervisões e avaliações constantes, por ser demasiado perfeccionista acabo por me desmotivar facilmente com uma crítica menos boa. Mas aqui foi diferente. Lembro-me do primeiro dia de estágio como se tivesse sido na semana passada, e foi há 4 meses. Lembro-me da primeira vez que entrei em ambos os serviços e vi pela primeira vez as minhas duas supervisoras. Uma delas enfermeira chefe e a outra com imensos anos de serviço e uma exigência de nível 100!! Na altura pensei "estou completamente lixadinha da vida". Tretas. Foram duas enfermeiras excepcionais, cuidaram de mim, e mais que supervisoras foram minhas amigas! No final do primeiro mês já tínhamos uma relação informal entre muitas brincadeiras, inclusive conversas pessoais. E isso no fundo fez-me bem, aliviou-me a tensão, deixou-me à vontade para questões e dúvidas. Formei uma família naquele hospital e ter que dizer Adeus hoje foi bastante difícil. A exigência de ambas as enfermeiras fez com que eu melhorasse as minhas competências e aprendesse novas. Considero ambas a "enfermeira ideal", vejo nelas aquilo que eu quero ser. Absorvi cada ensinamento, cada aprendizagem como uma esponja. Quero ser como elas!
No final conseguiram surpreender-me com mimos, as enfermeiras do ambulatório de quimioterapia ofereceram-me essa caneca linda aí em baixo! Uma das pacientes fez um porta-chaves para mim e nunca me esquecerei das palavras dela "sempre que tiveres em baixo lembra-te de mim, pois quando eu estive em baixo lembrei-me sempre do que você fez por mim. Muito muito obrigado por ter cuidado de mim com tanto amor quando eu não acreditava não aguentar tudo isto". Como querem que não seja sensível e não chore? Chorei rios de lágrimas hoje. Descobri que os melhores abraços são dados pelas pessoas que lutam diariamente por mais um dia de vida. Os melhores conselhos são dados por esses heróis. E agora, mais que nunca, orgulho-me tanto das minhas duas estrelas que já partiram devido a doença oncológica. Agora sim, eu sei e percebo tudo aquilo que eles passaram, sofreram e lutaram.  Custa-me que eles não estejam presentes para verem que consegui, que já sou enfermeira, que podia cuidar deles... 
Não quero ir embora, não quero deixar a família que criei aqui. Sair pela última vez da porta do hospital doeu muito. Sentei-me num banco do jardim a olhar para aquela "casa", a relembrar-me do primeiro dia, a relembrar-me todos os momentos que ali vivi, o quão sortuda sou por ter tido esta oportunidade. Eu vou voltar, prometo.

Chega a hora de agradecer às pessoas que fizeram parte deste percurso perfeito.
- Tenho de agradecer à Prof. Dra. Soraia Dornelles, porque me deu a oportunidade de realizar este intercâmbio e se disponibilizou para me orientar. Sem ela eu nunca teria realizado este sonho! 
- Às enfermeiras orientadoras, Jaçany Borges e Julieta Oro, pela maneira como me acolheram, pelas suas personalidades fortes, e suas características humanas invulgares, tendo ambas sempre me encorajado neste caminho e me ensinaram a fazer dos nossos encontros um desafio de autenticidade e reciprocidade. Devido às suas ricas sabedorias e rigores demonstrados, ao longo das 15 semanas, fui aperfeiçoando o cuidar com competência e sentido ético. Dois seres humanos importantes para mim, com quem aprendi e cresci enquanto pessoa e, principalmente, como futura enfermeira.
- A todos os restantes profissionais e pacientes, embora com mais contacto com uns do que outros, todos contribuíram para que estes meses corressem da melhor forma possível, e por isso mesmo o meu sincero,

OBRIGADO! Levo-vos no meu coração.




20 junho 2015

113º dia - Transplante de Medula Óssea

Tenho enfermeiras supervisoras excelentes e deram-me a oportunidade de ir a outro hospital de Florianópolis, o Hospital Celso Ramos, ver pela primeira vez um transplante de medula óssea!! À medida que o dia se aproximava maior era o entusiasmo. Sabia que o transplante de medula era mais simples do que se imagina mas o facto de ganhar experiência e conhecimentos é óptimo para mim.
Saí de casa às 6 horas da manhã para chegar a tempo do início do turno, às 7 horas. Primeiro que tudo, a enfermeira chefe e a restante equipa foram excepcionais comigo! Prontificaram-se em me deixar à vontade, mostraram prazer em me ensinar, são uma equipa divertida e com muito boa onda! Tenho a sorte de trabalhar aqui com profissionais de topo, tenho aprendido imenso!
Quanto ao transplante, este começou às 14 horas em ponto. Deixaram-me filmar todo o procedimento mas como é lógico não vou colocar aqui, nem posso.
Para desmitificar alguns mitos e medos:
O paciente está acordado em todo o processo e não sente qualquer dor não. O transplante de medula óssea não é um processo cirúrgico, é realizado através de um cateter venoso central como se fosse uma transfusão de sangue. É infundida a medula óssea na veia e durante o procedimento o paciente tem que estar todo monitorizado. Quem realiza este transplante é a enfermeira, mas o médico tem de estar presente no quarto. Neste caso o paciente recebeu 4 bolsas de medula óssea, que vêm congeladas dentro de uma arca. Antes de ser infundida, cada bolsa tem de ser confirmada com o médico, enfermeira e prontuário do paciente. A enfermeira dá a ordem para descongelar a primeira bolsa em "banho maria", e depois tem apenas 4 minutos para infundir cada bolsa. O técnico de enfermagem cronometra o tempo através de um cronómetro. 
Neste caso, a medula que foi infundida era do próprio paciente, que foi retirada uns meses antes. Após a retirada dessa medula o paciente fez um tratamento muito forte de quimioterapia com o objetivo de o deixar completamente imunossupremido (sem defesas) ao ponto de poder morrer se este transplante não for feito. Após o transplante da medula o paciente recupera a passos largos, livre de cancro e com mais anos de vida pela frente. No final do transplante a alegria foi total, palmas para ali e para aqui. O paciente radiava felicidade!

Apelo a todo o mundo, por favor! Doem sangue, doem medula! O que para nós pode ser uma dorzinha para o paciente é a diferença entre a vida e a morte.
Trabalhei aqui 4 meses na área oncológica, mais especificamente na área da hematologia (leucemias, linfomas e mielomas), cada paciente marcou-me de alguma forma. Estas pessoas rezam todos os dias para que surjam doadores compatíveis. Lutam para poderem ver o nascer do sol mais um dia. Não precisam de ser médicos, enfermeiros ou bombeiros para salvar vidas, basta serem humanos.
Este é o Guilherme e é meu paciente desde Março. Tem leucemia linfóide aguda e precisa da tua ajuda! Não só ele como muitos outros meus pacientes estão à espera que does sangue/medula e os salves. Eu vou doar mal chegue a Portugal, e tu? Do que estás à espera?






19 junho 2015

112º dia - 27 factos importantes

Está na altura de refletir sobre aspetos importantes que se sucederam ao longo destes 4 meses. Ora então vamos lá:

1- O despertador tocou sempre às 5h30 ao longo destes 4 meses e não adormeci nem uma única vez para ir para o estágio. Beijinho no ombro para o meu pai que dizia que eu nunca iria chegar a horas a nada;
2- Trouxe a placa e o modelador, mas nunca estiquei o cabelo ou fiz caracóis neste tempo. Cresceu muito, ao contrário das mamas. (Sinto o cabelo mais saudável que nunca e não não o aclarei, foi o sol);
3- Metade das roupas que trouxe não usei. Trouxe uns sapatos de salto e uns vestidos formais, até hoje ainda não percebi o porquê;
4- Não comprei nem uma única peça de roupa aqui a não ser biquínis;
5- Entrei apenas uma vez em sites para ver roupas (zara, stradivarius, pull, mango, bershka, missguided, asos, topshop, etc);
6- Não desejei nem uma única vez desejar voltar para Portugal;
7- Engordei 3 kilos e meio mas já emagreci um;
8- Todas as meias que trouxe foram para o lixo de tão rasgadas...
9- ... devido ao facto de só ter cortado as unhas dos pés 2 vezes. Esqueci-me do corta-unhas em Portugal, querem o quê?
10- Não aprendi a cozinhar nada de novo, desculpa mãe;
11- Passei 3 vezes roupa a ferro no máximo, o resto das roupas eram colocadas debaixo no colchão. Resulta, juro!
12- Fui obrigada a gostar de feijão;
13- Terei o verão mais longo da minha vida, de Fevereiro a Setembro, olha que maravilha;
14- Sou menos ingénua. Com o tempo e distância descobri quais as pessoas que quero ao meu lado e as que vou simplesmente ignorar;
15- O meu sotaque luso-espanhol-alentejano deu uma volta de 180º;
16- Aprendi a valorizar cada pequeno momento da vida, deixei de me queixar de tudo e mais alguma coisa;
17- O meu jaleco (bata) está capaz de ir para o lixo de tão roto e sujo (de sangue) que está. Marcas de guerra!
18- Não pintei nem uma única vez as unhas das mãos;
19- Vivi numa rua com macacos a saltitar de árvore em árvore e jacarés na ribeira ao lado;
20- Cheguei como aluna de enfermagem e saio daqui enfermeira;
21- O lugar mais maravilhoso que visitei foram sem dúvida as Cataratas da Foz do Iguaçu;
22- Não aprendi nenhuma língua nova mesmo estando com 100 intercambistas na ilha;
23- Perdi-me poucas vezes e descobri lugares encantadores;
24- Não adoeci nem uma única vez em 4 meses, mesmo com a mudança drástica de temperatura, mudança da água e alimentação. Agora aposto que chego a Portugal e fico logo com 40º de febre;
25- Visitei 22 praias e fiz cerca de 10 trilhas; 
26- Foram os melhores 4 meses da minha vida;
27- O meu coração cresceu e amadureceu.

111º dia - Poção do Córrego Grande

Esta será a minha última semana na ilha e não consigo conformar-me com a realidade, não consigo...
De manhã tive estágio no Ambulatório de Quimioterapia, e à tarde fui fazer a trilha do Poção do Córrego Grande. Quem tem o privilégio de ter uma cachoeira linda atrás da sua casa? Eu tenho!! É um lugar verdadeiramente mágico. Um spot maravilhoso para estar entre amigos ou mesmo sozinha quando preciso de sonhar. Sou apaixonada pela natureza! Pelo mundo! Pela vida! Não podia ser mais feliz do que sou e estar em paraísos como estes fazem-me refletir sobre isso mesmo.
A meio da trilha fui adotada por uma matilha de cães felizes. Tããão bom! Deu-me uma forte saudade do meu pequenino.







110º dia - Sunday w/ friends

Ontem fui petiscar a um pub com música ao vivo com as minhas manas da casa. Loucas mas viciantes. Hoje optei por ir ao cinema (outra vez) com dois portugueses ver o "Terramoto - A Falha de San Andreas", bom demais! Vale a pena ver, parece tão real que quando termina o filme tens a sensação que lá fora está tudo destruído, já para não falar que tive pesadelos e acordei a chorar a pensar que tinha havido um terramoto em Portugal. Chiça.









109º dia - Sawabona

Tenho de partilhar isto uma vez que foram estes os valores que aprendi nestes últimos 4 meses aqui no Brasil. Sou a primeira a levantar o dedo quando se fala em erros cometidos. Aprendi a respeitar todas as pessoas independentemente dos seus defeitos e erros, pois cada uma delas tem as suas qualidades e sucessos. Se fossemos mais humildes, o mundo seria um lugar melhor.

«Há uma "tribo" africana que tem um costume muito bonito. Quando alguém faz algo prejudicial e errado, eles levam a pessoa para o centro da aldeia, e toda a tribo vem e a rodeia. Durante dois dias, eles vão dizer ao homem todas as coisas boas que ele já fez.
A tribo acredita que cada ser humano vem ao mundo como um ser bom. Cada um de nós desejando segurança, amor, paz, felicidade. Mas às vezes, na busca dessas coisas, as pessoas cometem erros. A comunidade enxerga aqueles erros como um grito de socorro. Eles se unem então para erguê-lo, para reconectá-lo com sua verdadeira natureza, para lembrá-lo quem ele realmente é, até que ele se lembre totalmente da verdade da qual ele tinha se desconectado temporariamente: "Eu sou bom". Sawabona Shikoba!
SAWABONA, é um cumprimento usado na África do Sul e quer dizer: "Eu te respeito, eu te valorizo. Você é importante para mim". Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA, que é: "Então, eu existo para você".»


16 junho 2015

108º dia - Bloco de post-its

Antes de partir para o Brasil, em Fevereiro, ofereci ao André um bloco de post-its. A primeira folha dizia "Faltam 116 dias", a segunda "115 dias" e por aí adiante. O objetivo seria que ele todas as manhãs arrancasse uma folha para saber quantos dias faltavam para o meu regresso. No dia em que ele fez anos deixei escrito no respetivo bilhete uma mensagem de parabéns. Ao longo de todo o bloco fui deixando várias mensagens como "tenho saudades tuas", "já faltou mais" ou "amanhã estarás aqui no Brasil comigo". Mensagens escritas e pensadas prevendo os momentos. É uma boa sugestão para casais que ficam distantes durante algum tempo. Sinceramente pensei que ele se fosse esquecer do bloco mas afinal não... deixou-me esta imagem e na altura faltavam 11 dias.



107º dia - Estatísticas do blog

Estive a analisar as estatísticas do blog pela primeira vez e chego a estas conclusões. O post mais lido foi o nº 100, seguido do post 102º. O blog já foi visitado por 138.681 mil portugueses, seguindo-se o Brasil com 4.915 mil visitantes. Fiquei colada ao ecrã com todos estes números. Para muitos é um número pequeno, para mim é um número gigante tendo em conta a minha insignificância neste mundo. Nunca pensei que o blog pudesse ter um impacto tão positivo com esta ideia do "Diário de Intercâmbio". Recebi dezenas de mensagens de pessoas desconhecidas a darem-me apoio, a desejarem-me felicidades e a colocarem dúvidas sobre o intercâmbio e o curso de enfermagem. Várias perguntaram-me se ia deixar de escrever quando chegasse a Portugal... Não irei escrever diariamente porque certamente não terei muito para contar. Irei tentar escrever 2 posts por semana. Vou falar sobre como foi o processo de readaptação ao nosso país e sobre a nova etapa: a procura intensiva por um emprego. Escreverei diariamente apenas quando estiver em viagens.




Chiça!! Obrigada a todos!

106º dia - Fitness na República

Vivo numa casa com 10 paspalhas e reparei que elas andavam a abusar nos doces enquanto se queixavam dizendo que pareciam hipopótamas, então planeei uma aula de fitness para trabalhar a bunda, quadríceps e abdominais. No final a Rob ensinou-nos a dançar o quadradinho... uma dança que nunca terei jeito pois é necessário uma verdadeira bunda!! No dia seguinte nenhuma de nós conseguia subir as escadas para ir para os quartos. 
São todas umas peças do catano... também se não fossem não formávamos um perfeito puzzle. Somos todas diferentes mas com algum em comum: temos o espírito da amizade. Temos gurias de todos os tipos, tamanhos e cores. A Roberta é baixinha e ruiva. A Dany é espontânea e de cabelo azul. A Mel é canadense, alta e com californianas. A Pat é apaixonada e loira. A Tina é angolana, a minha pretxinha linda de tranças. A Isa é uma jóia de pessoa, com cabelo encaracolado lindo de morrer! A Bruna tem aquela voz doce e um estilo vintage, cabelo curto e preto. A Van é nova na casa. A Cris morena é tímida mas com um coração mole. A Cris loira... enfim não a conhecemos. Somos uma família e vai-me custar tanto mas tanto sair da porta da casa pela última vez, dar-lhes um último abraço e partilhar com elas a última de tantas gargalhadas que demos. Hesitei em ficar com o quarto há 4 meses atrás, porque imaginei que tanta guria junta fosse problema, mas não foi. Ainda bem que nos cruzámos, foi um prazer galera! :')




14 junho 2015

105º dia - Até um dia Praia da Barra

Saí do estágio novamente às 13h, almocei a marmita no caminho e fui a correr para a praia da Barra com amigos, sabendo que era a última vez que iria estar lá. No final do dia, no momento em que virei costas e retirei o último pé da areia senti uma pontada no coração. Inspirei o ar da praia e expirei um adeus. Até um dia Praia da Barra*



104º dia - Barra Beach

Esta será a minha penúltima semana de estágio. Saí às 13h e fui para a praia, aproveitei para comprar o resto das lembranças para levar para Portugal, não resisti e comprei mais um biquíni. Já lá vão quatro... é por uma boa causa vá.
Começo a sentir-me nostálgica, passo pelos locais e observo-os com outros olhos ao imaginar que será a última vez que passarei lá, como por exemplo esta paisagem em baixo. É linda não é? Sento-me onde calha e contemplo paisagens de cortar a respiração. Reflito sobre tudo o que me me faz bem, sobre a sorte que tenho em estar ali naquele momento em frente a um pedaço do mundo. Encho o coração de amor e retomo o meu caminho com a lágrima no canto do olho e um sorriso disfarçado. Já perdi a conta das vezes que pessoas estranhas sorriram para mim só de me verem sorrir sozinha. Eu acho que elas percebem que estou feliz e que não quero ir embora.


13 junho 2015

103º dia - Joaquina Beach with girls

Temos aproveitado esta semana de sol pela ilha, a chuva parou mas há-de voltar. Temos praia para norte, sul, este e oeste, que chatice. Eu, a Sandra e a Mariana decidimos ir até à praia da Joaca' para relaxar, apanhar sol e meter a conversa em dia. Adoro estas duas e vai-me custar deixá-las quando for embora. Na volta para casa apanhámos carona, como habitual.



12 junho 2015

102° dia - White Tattoo

Algumas semanas atrás fiz a minha primeira tatuagem aqui no Brasil. Não disse a ninguém, marquei e fui fazê-la sozinha. Sempre quis fazer uma mas nunca me precipitei pelo medo de me arrepender futuramente. A tatuagem que fiz já a tinha em mente desde os 18 anos talvez. Deixei esperar a melhor altura para a fazer e ter a certeza que era mesmo o que queria. Quando cheguei ao Brasil percebi que era a altura ideal. 
Fiz um electrocardiograma no hospital e tatuei o meu batimento cardíaco. Não é um batimento cardíaco qualquer, é o meu, o tal que me mantém viva. Decidi fazer a tatuagem com tinta branca e não com preta por ser diferente e discreta, é uma tatuagem para mim, não para mostrar.
É uma tatuagem com dois significados:
1º- Realizar este intercâmbio foi a melhor experiência que já vivi até hoje. Cresci pessoal e profissionalmente. Aprendi a valorizar pequenos pormenores. Considero-me uma pessoa mais tranquila e menos stressada. Tudo o que me irritava passei a admirar. Percebi que enquanto o meu coração bater eu posso ser, ter e fazer tudo o que eu quiser. Deixei de adiar ou desmarcar planos. Se quero ir à China? Então eu junto dinheiro e vou. Se quero fazer voluntariado em países necessitados? Então eu trato da burocracia e vou. Temos que deixar de dar desculpas e colocar obstáculos inexistentes à frente de sonhos, antes que seja tarde demais. Por esse mesmo motivo, tatuei o meu batimento. Enquanto ele bater significa que eu posso ser, ter e fazer o que eu quiser, repito. Dou mais valor à vida mesmo com pedras no caminho, não compreendo quem deseja por termo à mesma. Muitas pessoas que já partiram davam tudo para estar no nosso lugar para realizar sonhos que ficaram por concretizar.
2º- Esta tatuagem é também uma forma de honrar os meus 4 anos de curso e a minha nova etapa como enfermeira. As crianças sonham em ser princesas, eu sonhava ser enfermeira.


Agora já percebo quando me diziam que tatuagem vicia. Vicia mesmo e já tenho outra pensada, será uma tatuagem que representará de alguma forma o meu problema auditivo.
Todas as tatuagens que farei serão tatuagens pequenas, discretas e únicas. Serão escritas/desenhadas por mim. Ninguém no mundo terá igual e isso para mim é importante. Originalidade acima de tudo. Não se precipitem a tatuar símbolos ou frases que encontraram na internet ou só porque viram noutra pessoa. Juízo.
Filmei o momento e não poderia estar mais satisfeita. Não estava nervosa mas sim ansiosa, nem me lembrei que fazer uma tatuagem poderia doer, no momento em que vi a agulha é que imaginei a dor. Não vou mentir, no início senti uma dorzinha como pequenos beliscos mas depois já sabia bem, dava-me calafrios e não parava de rir. Avaliei vários estúdios e preferi o Pachamama Floripa Shop Tattoo & Piercing que fica na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Um obrigado gigante a toda a equipa/família que se prontificou a ajudar-me, profissionalismo excepcional. Voltarei para me despedir e tirar uma fotografia para recordação.

Estava a pensar contar aos meus pais acerca da tatuagem só quando chegasse a Portugal mas pensei melhor e pelo skype eles não tinham como me bater. Filmei a reacção da minha mãe quando lhe contei, podia ter sido pior! Ora vejam lá.



101º dia - Ilha do Campeche

Finalmente o tempo maravilhoso voltou e para juntar o útil ao agradável fomos até à Ilha do Campeche de barco. Gente, conheci a melhor praia de Florianópolis! Areia branca e fina, águas quentes e tão transparentes, palmeiras e paisagens de cortar a respiração! Apaixonei-me perdidamente pela ilha e por mim ficava aqui a viver que nem "Lagoa Azul". Fartei-me de tirar fotografias e fica difícil escolher uma!


















100º dia - Sou surda, e daí?

O post do dia 100 tinha de ser o mais especial de todos, para mim. Pensei muito antes de escrever este post e quase de certeza que me vou arrepender de falar do meu ponto fraco aqui, para todo o mundo. Muitos se questionam sobre que problema tenho e como surgiu. Quem me conhece sabe que é um assunto meu e que não falo com qualquer um sobre ele. Não sabia se deveria mas decidi falar abertamente sobre o assunto aqui, não por mim, pois já ultrapassei há muito, mas sim para os mais curiosos.

- O que é isso que tens nos ouvidos? A típica pergunta dos ignorantes.
São aparelhos auditivos, e se alguém se dignar a perguntar para que servem leva uma chapada.

- Desde quando usas aparelhos?
Uso desde os 6 anos, a pior fase de adaptação.

- Nasceste surda?
Não sei. Ninguém sabe. Os médicos e os meus pais acreditam que não pois aprendi a falar, quando o meu pai chegava a casa, assobiava e eu olhava. Começaram a desconfiar quando tinha 3 anos porque a minha linguagem não evoluía e já não olhava mais após o assobio.

- O que causou a surdez? 
A questão que mais me intriga desde sempre. Ninguém mais que eu gostaria de saber essa resposta. Estive internada com 1 ano com uma gastroenterite e os médicos acreditam que possa ter sido um efeito colateral de algum antibiótico administrado na altura. Por isso é que eu evito qualquer medicação, se me dói a cabeça descanso e durmo, se tenho febre aguento e faço os possíveis para baixar através de compressas frias ou banhos de água morna. Por favor, pelo vosso bem não abusem dos medicamentos, auto-medicarem-se muito menos! Para além dos medicamentos terem efeitos secundários o vosso organismo cria uma resistência aos mesmos, acabando por não surtirem o efeito desejado.

Foi gradual ou de repente? Sem os aparelhos ouves?
Não me recordo se foi gradual ou de repente. A boa notícia é que até hoje o nível de audição não piorou, tem-se mantido nos mesmos decibéis, tenho uma surdez de grau severo. Sem os aparelhos oiço cerca de 20%, oiço os sons graves, com dificuldade nos agudos. Apenas percebo a pessoa se estiver de frente para mim, no máximo a um metro de distância. Com os aparelhos oiço cerca de 90%, portanto, aos ignorantes que insistem falar alto comigo, deixem de fazer figuras, pois chamo-vos todos os nomes possíveis e imagináveis na minha cabeça.

- Como foi a adaptação?
Comecei a ter memórias a partir do momento que comecei a ouvir, portanto lembro-me exatamente do momento em que voltei a ouvir. Lembro-me do gabinete, de estar no colo do meu pai, de ver a minha mãe nervosa e de não saber porquê, lembro-me de todo o processo de realização do molde do aparelho, lembro-me da cara do audiologista e ele dizer "agora vai ouvir sons". No momento que ele ligou os aparelhos abri os olhos e não pestanejei nem uma única vez, franzi as sobrancelhas e comecei a movimentar bruscamente a cara em direção a tudo o que fazia barulho. Lembro-me de olhar para o ar condicionado e ouvir o ar sair, de olhar para a porta porque ouvia um som estranho e descobri que eram os passos das pessoas no corredor. Lembro-me do momento em que ouvi a voz dos meus pais pela "primeira vez", "filha estás a ouvir??". Na altura não chorei, a maioria das crianças choram e entram em pânico, não aceitam. O pior veio depois quando descemos o edifício da Widex e chegámos a uma das avenidas principais de Lisboa, Duque D'Ávila. O barulho dos carros, as buzinas, os saltos altos no passeio, as pessoas a andarem apressadamente e a falarem ao telemóvel... tudo isso foi demasiado para eu absorver. Sons banais do dia a dia que para mim não faziam sentido. Não dizia uma única palavra. Quando entrámos na ponte 25 de abril explodi. Saí da cadeirinha do carro, agachei-me na parte de trás com as mãos nos ouvidos a gritar, a pedir por favor para me tirarem os aparelhos. Não aguentava. Queria voltar ao meu mundo silencioso, sereno e tranquilo. Quando chegámos a casa, nos primeiros dias só queria dormir ou estar no banho, pois o audiologista disse que era necessário tirar os aparelhos apenas para dormir e para tomar banho (esperta eu).

- Porque não fazes cirurgia?
Porque não existe cirurgia para o meu problema. Os meus exames foram até para França para o meu caso ser avaliado. Se surgisse uma nova técnica de cirurgia hoje não sei se faria.

- Os aparelhos incomodam?
Não! Nem me lembro que os tenho, eles são feitos de propósito para o meu canal auditivo através de um molde. Tal como os aparelhos nos dentes. Até aos 12 anos usei aparelho por trás das orelhas, depois optei pelos mais discretos possíveis que ocupam apenas o canal auditivo, acabou-se o complexo de andar de cabelo apanhado. Antigamente os aparelhos eram todos da cor da pele, hoje em dia já são coloridos. Uma vez vi uma menina com uns cor de rosa, mesmo para mostrar e dizer "eu uso aparelhos auditivos e sou linda".

- Que marca de aparelhos aconselhas?
A Widex, sem dúvida alguma. É uma empresa de topo, líder mundial em aparelhos auditivos de alta definição. Audiologistas qualificados e assistência técnica em 24 horas. 

História:
Quando era criança sofri algum preconceito e discriminação, sei o quanto dói a alma ser desprezado e ser posto de parte pela sociedade por ser "deficiente", POR FAVOR, excluam esta palavra do dicionário. É a palavra mais feia que existe. Cheguei a preencher questionários em que perguntavam exatamente isto "Tem algum tipo de deficiência? (motora, surdez, etc)" eu nunca coloquei nenhuma cruz. Temos que ter mais cuidado com a linguagem utilizada.
A minha infância foi marcada por diversos episódios que ainda hoje recordo. Fui vítima de muitas bocas do género "podemos falar mal dela à vontade, ela é surda", era chamada de mimada porque pedia para a professora repetir perto de mim. No segundo ano mudei de escola e cidade, para Reguengos e aí sim fiz os verdadeiros amigos que tenho hoje, que são aqueles que nem se lembram que uso aparelhos.
Escondi o problema até aos 12 anos. Quando coloquei os aparelhos perguntei ao audiologista quando é que ficaria "curada" e ele para não me desanimar disse "lá para os 12 anos". No dia em que fiz 12 anos, quando acordei a primeira coisa que fiz foi ir ter com a minha mãe e ouvir a voz dela. Cheguei à conclusão óbvia, das piores desilusões da minha vida. Por favor, nunca criem falsas expectativas às crianças, elas não se vão esquecer das promessas. A partir dos 12 anos rejeitei toda a ajuda a que tinha direito na escola, como facilidade nos testes, explicações extras, notas mais altas... queria conquistar tudo por mérito. E consegui, a prova disso é que daqui a uns dias vou terminar a licenciatura.
Aos 12 quando entendi que teria de lidar com o problema para o resto da vida deixei de me preocupar, deixei de ser introvertida e tímida e passei a ser extrovertida e espontânea, entrei para a equipa de basquet, fiz o triplo dos amigos e... o melhor de tudo na adolescência, tive o primeiro namorado. Era difícil para mim acreditar que poderia haver alguém que gostasse de mim assim. Se eu não gostava de mim nem do meu problema como era possível alguém gostar? Foi devido à equipa, aos amigos e ao primeiro namorado que comecei a banalizar o meu problema e a criar piadas sobre ele. Por exemplo, quando os meus amigos não se calam ameaço desligar os aparelhos, ou quando a voz do aparelho me avisa "PILHA FRACA" eu respondo e falo com a voz sozinha, o pessoal percebe e desata a rir. Se não têm confianças comigo não façam piadas sobre o assunto. Lá porque eu faço não significa que tenham permissão para o fazer. 
Percebi então nessa altura que não era diferente de ninguém, não era mais nem muito menos que qualquer outra pessoa. E hoje tenho cada vez mais certezas disso.

ATENÇÃO: a pior coisa que me podem fazer é contarem a alguém que sou surda e uso aparelhos. Já perdi a conta das vezes em que me apresentaram a uma pessoa e mal viro as costas "ela é surda, usa aparelhos", como se eu não ouvisse! Como se vocês tivessem muito a ver com isso! Depois admiram-se de levarem uma descompustura à frente de meio mundo. Sim, porque isso é uma das coisas que me deixa incontrolável. É a minha vida pessoal, um assunto que só a mim me diz respeito! Não preciso que falem por mim, eu e só eu tenho o direito de contar a quem eu quiser. Por isso, peço-vos do fundo do meu coração, respeitem-me. 

Se me revolto por ter este problema? Seria egoísta revoltar-me quando há crianças a morrerem à fome. A única coisa que me custa são as despesas que já dei aos meus pais. Até hoje já tive 6 aparelhos, 3 para cada ouvido. Cada aparelho ronda aproximadamente os 3.000€, isto dá sensivelmente 18.000€ mais os custos das pilhas e filtros. Cada aparelho dura em média 5 anos se forem bem estimados. Não se podem molhar nem cair ao chão. 
Os meus pais foram as duas pessoas mais importantes no processo de adaptação, primeiro porque trabalharam arduamente para não me faltar nada. Fizeram de tudo para não atrasarem o meu desenvolvimento, percorreram o país à procura de soluções, colocaram-me na terapia da fala e empurraram-me para o mundo "normal" para enfrentar as dificuldades sozinha, crescer e aprender, nunca me trataram como uma coitadinha. Conheço pais que isolam filhos surdos por os considerarem diferentes, contratam professores para darem aulas em casa, impedem-nos de participar em atividades e a criança acaba por crescer e continuar uma criança. Isso deixa-me verdadeiramente frustrada! A liberdade é o melhor método para o crescimento pessoal.

Tenho desejos por realizar. Quero muito aprender língua gestual, espero conseguir integrar um curso ainda este ano. Gostaria ainda de pertencer ou criar um grupo de ajuda para as crianças e adolescentes em fase de adaptação aos aparelhos auditivos. Quero apresentar-lhes a minha história, ajudá-los na integração neste mundo malicioso. Fazê-los perceber que silêncio não é sinónimo de solidão.
Agradeço todos os dias por ter a oportunidade de ouvir os sons do dia-a-dia, poder ouvir música, ouvir as ondas do mar, os assobios dos pássaros, poder ouvir a voz das pessoas de quem gosto. Mas agradeço principalmente pela oportunidade que tenho em ficar no silêncio sempre que quero e preciso. A primeira coisa que faço quando chego a casa é tirar os aparelhos e mergulhar no meu mundo silencioso. Todos os posts escritos aqui foram escritos no silêncio. Todas as minhas noites são bem dormidas, não acordo com festas, tambores ou trovoadas. Durmo feliz no silêncio e acordo feliz por ouvir.

(Com este post despi o meu escudo de proteção, expus a minha maior "arma" ao mundo. Peço respeito, nada mais.)

10 junho 2015

99º dia - Depressão pós-intercâmbio

Encontrei este artigo no blog E-konomista e tive de partilhar. Concordo a 100% com tudo o que foi dito e tenho receio de sofrer esta depressão pós-intercâmbio, a tal "síndrome de regresso", pois ainda não saí do Brasil e já me emociono com lugares e paisagens que sei que dificilmente voltarei a ver. Confesso e não é novidade nenhuma, não tenho vontade de voltar.


"Depois de viver essa experiência, chega a hora de voltar do intercâmbio. Após o período, que na maior parte das vezes compreende entre 6 meses e 1 ano, o jovem precisa de abandonar a vida ao qual teve que se acostumar no exterior e voltar do intercâmbio para o país de origem. 
Muitas pessoas mencionam a “depressão pós- intercâmbio”, e para quem pensa que é uma bobagem, vale o alerta: o assunto é tão sério que já é objeto de estudo de psiquiatras e psicanalistas.

Síndrome do regresso.
A depressão, dificuldade de se readaptar ou tristeza que abate o intercambista após o retorno ao país de origem é chamada de síndrome do regresso, termo cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa para designar o “jet lag espiritual” sentido por muitas pessoas ao voltar pra casa. Segundo ele, quando o intercambista parte para o período de intercâmbio, está cheio de expectativas e planos sobre a vida no novo país. O período de adaptação à nova realidade no exterior varia de país para país, mas a média é de 6 meses. Já a readaptação ao país de origem demora em média 2 anos.


Por que é difícil readaptar?
São inúmeras as respostas, e muitas delas são pessoais, pois cada pessoa que vive fora do país por algum tempo vive uma diversidade enorme de experiências que fazem do seu momento único, e o período de voltar do intercâmbio mais difícil. Mas os motivos mais comuns que geram a síndrome do regresso, são:

- Sensação de que perdeu o bonde: quando você voltar, muitas coisas aconteceram e você não estava lá. Perdeu novidades das vidas das pessoas próximas a você, a cidade que você morava mudou, muita gente passa a não reconhecer mais o seu território.

- A falta da novidade: quando você mora num país estrangeiro, tudo é novo. A língua é nova, a atitude das pessoas é diferente, as comidas são diferentes, tudo é novidade. Até uma mera ida ao mercado é algo mais divertido do que em Portugal, pois já conhecemos tudo que lá encontramos: os produtos, as marcas, os preços. No exterior, conhecer tudo novo é uma experiência agradável e ela termina logo que chegamos ao país natal.

- Amigos de muitas nacionalidades: uma das reclamações mais comuns, é a saudade dos amigos feitos no período de intercâmbio. É comum ter a oportunidade de conhecer pessoas do mundo todo durante o período de intercâmbio e é uma realidade que a intensidade das relações é muito mais profunda quando ambos estão fora do seu país de origem. Em um dia, eram um desconhecidos, no outro são melhores amigos, viajam juntos, dividem experiências cotidianas e fazem laços de amizade muito fortes. A sensação de que pode nunca mais ver essas pessoas que foram tão importantes nesse período, aumenta a depressão pós-intercâmbio.

- Adaptar à realidade do seu país: acostumar-se com o dia a dia do seu país após um período em outros países não é fácil. Muitas intercambistas voltam com mais medo da violência e dos assaltos do que quando partiram daqui; reclamam muito dos preços, pois se acostumaram a ter maior poder de compra com menor quantidade de dinheiro; reclamam dos transportes; reclamam da desordem: depois de se acostumar com uma população mais enérgica que a nossa, o barulho, a confusão, as filas e o “jeitinho português” tomam uma dimensão maior do que se pensa.

- A saudade das viagens: intercambistas viajam muito. Os motivos são diversos: querem conhecer o país de destino (ou os países vizinhos) enquanto têm a oportunidade, conseguem fazer viagens a baixo custo, conhecem vários lugares em uma mesma viagem, conhecem dezenas de pessoas por viagem. Quando voltam a Portugal, essa realidade muda. Viajar é mais caro, as nacionalidades não se diversificam, e a frequência cai absurdamente. A saudade das viagens e a vontade de conhecer o mundo só aumentam.

- A sensação de “eu mudei”: é unânime - todas as pessoas que fazem um intercâmbio voltam diferentes. Essa mudança é perceptível tanto pelos parentes e amigos, e ainda mais pelo intercambista. Ganha-se em experiências, em independência, em “se virar sozinho”, vivência em um novo idioma ou aprimoramento daquele que já se falava, enfim, uma infinitude de ganhos. Enquanto você criou uma grande bagagem cultural e colecionou experiências, sua família e amigos, mesmo que muito felizes por você, continuaram na rotina de sempre. Muitos relatos aos psicólogos e psicanalistas retornam a esse ponto: é um crescimento acelerado vivido pelo intercambista e as pessoas ao seu redor não o acompanharam, e já não aguentam mais ouvir-te falar das mil e uma aventuras que você teve e eles não.

- “Voltei a ser comum”: quando você mora fora, você é novidade. É estrangeiro, tem visual diferente, costumes diferentes, fala uma língua diferente. Você é visto como alguém especial e a maioria das pessoas gosta dessa sensação. E ao mesmo tempo, toda a gente de Portugal declaram muita saudade de você, dizem que você faz falta, dizem para você voltar logo, o que aumenta a sensação de: eu sou especial. Quando retorna, você volta a ser comum. Todo mundo é português, a saudade que os amigos e parentes sentiam de você é encerrada e muita gente sente falta de se sentir “único e especial”.


Dicas para lidar com a depressão pós-intercâmbio.
Ao voltar do intercâmbio, você precisa se readaptar, quer queira quer não. Por mais que você sinta saudades do país em que viveu, que ele seja para você como uma segunda casa, a maioria das pessoas precisa ficar em Portugal para estudar, para trabalhar, por causa da família.

Então, para aprender a lidar melhor com a síndrome do regresso, o E-konomista fez uma lista de dicas que vão te ajudar a gerir melhor essa sensação e aproveitar o máximo do que você aprendeu no exterior aqui dentro do país.

1 – Veja filmes
Para matar as saudades dos locais onde visitou, vale ver filmes que foram encenados nesses lugares. Você verá os locais com uma nostalgia diferente, com uma sensação de “eu estive ali!”, que traz boas lembranças. Se você visitou Londres, veja filmes como “Um Lugar Chamado Notting Hill” ou “Match Point – Ponto Final”, se foi a Barcelona, uma boa indicação é ver “Vick, Christina, Barcelona”, se foi a Paris, “Meia Noite em Paris” ou “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” são boas pedidas, etc.

2- Leia livros
Da mesma forma que os filmes, os livros te transportam para os locais onde você esteve. Existem livros que se passam nas mais diversas cidades do mundo e garantem uma imersão imediata no local. Para matar a saudade de Nova York: Inside Girl; de Paris: The Da Vince Code; da Itália: Todos os Dias na Toscana etc.

3- Compartilhe suas experiências
Avise a todos quando você chegar: eu tenho muito para contar e quero compartilhar com todo mundo! Já ouviu falar que a melhor cura para uma doença é assumi-la? Pois assuma a sua depressão pós-intercâmbio e fale das suas experiências com amigos e família, deixá-las engasgadas só para você vai tornar mais difícil de digerir a saudade. Crie um blog, poste nas redes sociais, faça o #TBT, e torne as lembranças algo agradável e não sofrido.

4- Torne-se um turista na sua cidade e Estado
Sabe aquela vontade de explorar que você tinha ao viver na sua cidade do exterior? Que tal aplicá-la ao seu país? Com certeza tem inúmeras áreas do seu país que você não conhece e que reservam surpresas agradáveis! E cidades próximas às suas que podem ser baratas para viajar e ter muitas vantagens em conhecer. Coloque seu espírito de turista no “mode on” e desvende o seu local como um estrangeiro, vai lhe fazer bem.

5- Mantenha contato com seus amigos estrangeiros
Não deixe as amizades feitas no intercâmbio morrerem por falta de contato. Só essas pessoas viveram o mesmo que você, com a mesma intensidade. Elas são as pessoas ideais para ouvir suas saudades dos momentos vividos. Além de manter uma amizade com alguém bem diferente do seu cotidiano. Pergunte como vai, como vão as coisas depois do intercâmbio, os planos para o futuro, marquem de tentar se encontrar.

6- Dê tempo ao tempo
Uma hora, você vai se readaptar. Pode demorar um pouco mais do que o esperado, mas a sensação de “é bom estar em casa” vai voltar pra você. Evite entrar de cara nos estudos ou no trabalho com intensidade voraz porque isso irá ser um contraste muito grande com a vida cheia de estímulos positivos que você teve no exterior. Vai com calma, voltar do intercâmbio pode ser algo não sofrido se você conseguir gerir bem os seus sentimentos.

7- Continue viajando
Por mais que não dê para estar em um local completamente diferente uma vez por mês, a melhor dica para curar da síndrome do regresso é continuar a viajar. Procure destinos diferentes, faça a sua economia, invista o seu tempo e dinheiro nisso. Tornar-se um viajante é das melhores recompensas de quem faz um intercâmbio. Não há mais medo de enfrentar o mundo e conhecer tudo o que ele tem pra oferecer. Planeie, vá com amigos, com família, com namorado(a) ou sozinho, mas nunca mais deixe de viajar.


Quando voltar já não faz mais parte dos planos.
Para algumas pessoas, e um número considerável delas, a síndrome do regresso se torna algo tão forte, que o único desejo delas é voltar pro país do intercâmbio ou para um outro país estrangeiro. A falta de readaptação ao seu país faz com que muitos jovens comecem a pensar “eu não sou daqui” e procure meios de imigrar. 
Muitos tentam (até conseguir) uma vaga de emprego no estrangeiro, buscam prosseguir com os estudos, tentam projetos que os ligue a um outro país. É comum ouvir estrangeiros dizendo: fui, me apaixonei pelo país, retornei ao meu país e não me senti em casa, por isso voltei. Isso indica que a crise do regresso é algo mais forte do que uma simples saudade, e que nem todos se readaptam. 
Vivenciar algo que sempre se desejou no intercâmbio e ver esse laço cortado em seu regresso, faz com que muitos intercambistas façam as malas, busquem um destino no exterior e só voltem ao seu país para passear."