21 abril 2015

49º dia - Experiências

Desde que realizei o meu primeiro estágio em enfermagem que tenho valorizado mais a vida e todas as oportunidades que esta me dá. Neste momento estou no oitavo e último estágio, e posso já dizer que trago comigo uma bagagem pesada. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro paciente, do nome, do seu rosto, do seu corpo, cheiro e até do seu diagnóstico. Todas as pessoas deveriam viver uns dias num hospital só mesmo para observarem e reflectirem como a vida pode mudar em segundos ou como podemos sofrer com as consequências dos nossos atos.
Estes dias têm sido difíceis para mim na unidade, tenho perdido pessoas incríveis que me fizeram crescer mais um pouquinho com as suas histórias e lições. Num dia rimos às gargalhadas e no dia seguinte entram em paragem respiratória. "Ah enfermeiras são frias, enfermeiras não choram", eu não sou fria, eu choro. "ah mas com o tempo isso será um hábito e irás tornar-te uma pessoa fria", desde quando é que a morte pode tornar-se num hábito? Jamais irei ser uma enfermeira fria, e sim, deixo escorrer lágrimas com a família. Desculpem lá se sou empática e sofro com a dor dos outros. Para além de me colocar no lugar da família penso sempre que poderia ser a minha família naquela situação. Tenho medo de os perder. São a base da minha existência, amo-os com tudo aquilo que sou e tenho.
A maior parte dos meus pacientes são doentes oncológicos, idosos, adultos e adolescentes. Todos têm algo em comum... são heróis. Sinto-me pequenina ao lado deles. A área oncológica não é novidade para mim, tenho dois heróis no céu e acompanhei todo o processo desde o diagnóstico até à morte. E vocês agora perguntam-me "como é que te sujeitas a reviver todo esse processo outra vez e vezes sem conta?", não sei, sinceramente não sei. É complicado, eu sofro e ao mesmo tempo sou feliz assim. Tenho altas chances de desenvolver uma depressão, já me disseram, ok. Mas a probabilidade de depressão aumentaria se não trabalhasse na área. Prefiro ser sensível e sofrer do que ser fria e fazer sofrer os outros.
Num destes dias tratei de toda a burocracia de uma admissão de uma paciente tão querida... rapidamente desenvolvemos uma relação excelente como mãe e filha. Realizei o histórico de enfermagem, tentei perceber o que a levou às urgências, sinais e sintomas, acompanhei os exames dela e os resultados sairam. Peguei no prontoário e... o meu mundo desabou. "Cancro avançado no estômago", como?? Porquê?? Era só uma dorzinha no estômago!! Não poderia ser apenas uma úlcera?? Eu tinha que estar presente no momento em que ela recebesse a informação. E estive, não lhe falhei. E ela não falhou... ela encarou o problema como uma nova oportunidade e uma mudança no estilo de vida. A primeira pergunta que fez não foi o tempo que ainda viveria mas sim "acha que vou ficar bonita de lenço na cabeça?" vai ficar linda!! Ela é linda! A força daquela mulher surpreendeu tudo e todos. Aliviou-me o coração. E a filha? À frente da mãe demonstra ser uma guerreira, atrás, refugia-se no fundo do corredor. Eu limitei-me a acompanhá-la na dor sem dizer uma única palavra. O silêncio vale ouro nestas situações, a presença é o melhor que podemos dar para que a pessoa não se sinta sozinha e desamparada.

Soube do grave acidente em Évora e da morte do Miguel. Os meus sinceros sentimentos à família e amigos! 
Nunca sabemos como pode terminar o dia, vivam sempre de maneira a construir boas recordações! Se não podem mudar o mundo, mudem o mundo de alguém. Por favor, sejam vocês próprios, não tentem viver em função de outrem. Sejam honestos, solidários e felizes. Não guardem rancores, não discutam, não ofendam. Todos gostamos de ouvir elogios, façam por isso. Não invejem ninguém, isso significa falta de amor próprio. Olhem-se ao espelho, vejam como são bonitos, elegantes e livres. Amem-se! Antes convencido do que invejoso.

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