19 março 2015

20º dia - Coragem

Ao longo destes últimos meses várias pessoas me elogiaram pela coragem de pegar nas malas e atravessar o oceano sozinha. Eu nunca consegui entender sobre qual tipo de coragem falavam. A coragem de deixar a minha família? Os meus amigos? O meu namorado? A coragem de vir sozinha? A coragem de sair da zona de conforto? A coragem de ficar longe tanto tempo? Ou a coragem de aterrar sem casa ou previsões? A coragem de aguentar a saudade? Ou a coragem de ter coragem?
Eu não sei por onde começar a explicar mas a verdade é que eu nunca pensei em nenhuma dessas questões, sou sincera. Eu sempre quis fazer intercâmbio, eu sempre disse que queria ter uma experiência a nível de estudos cá fora. E o que eu digo eu faço, ponto. Na hora de me candidatar, tratei da burocracia sozinha, fui à entrevista, consegui e chorei. Nem na hora de fazer as malas, virar costas e partir no avião pensei em coragem. Realizar um sonho não é um acto de coragem, é um acto de persistência. Eu não deixei a minha família, eles estão comigo todos os dias. Eu não deixei os meus amigos, eu fiz novos amigos. Eu não deixei o meu namorado, eu vejo-o todos os dias através da web. Sim, eu vim sozinha e na verdade todo mundo precisa de um tempo sozinho, estou a conhecer-me e a descobrir os meus limites, estou a crescer, estou a aprender a desenrascar-me sozinha e a confiar mais em mim. Após algum tempo sem as habituais pessoas na minha vida aprendo a valorizar a importância que elas têm para mim. Sozinha sou obrigada a fazer novos amigos, aprendo a dialogar com as pessoas, a construir amizades. Vivo com pessoas de lugares diferentes, com experiências incríveis, isto fornece-me uma visão mais ampla da realidade. Sim, eu mergulhei fora da minha zona de conforto e não há nada melhor do que isso para me fazer ver que a vida não é estática, as aventuras que estou a viver renovam o meu coração. Gosto dos dias diferentes, transformá-los em experiências incríveis, com isso vou mudando a minha postura, a minha maneira de ser e estar. Sim, eu corro o risco de me perder, aliás, já me perdi e não sabem os lugares mágicos que descobri sem querer. Aqui percebi que nada difere uma população de outra, somos todos iguais por sermos todos diferentes, somos irmãos e cuidamos um dos outros, criamos laços afectivos. A saudade? Essa aqui ainda não bateu à porta com força, dá uns encostos mas nada de grave. O facto de estarmos ocupados, seja a estagiar ou no divertimento faz o tempo passar a voar. Se senti receio de ter saudade? Não, eu sabia e sei que vou sentir, na hora eu vou chorar muito mas sei que terei forças para limpar as lágrimas. Tenho consciência que estou a viver uma experiência única na minha vida, o que são meros meses fora de casa em 21 anos de existência? Quando der por mim já estou no avião de regresso. E quando chegar a Portugal será bom rever a família, o namorado, os amigos, as ruas, a minha casa, o cheiro da comida da minha mãe... mas aí vai bater uma forte saudade de Florianópolis, do clima, dos meus novos amigos, da minha universidade, do hospital, das praias, da tranquilidade da ilha. Daí eu dizer que não quero ser residente de uma cidade daquele país, quero viver no mundo, pois eu sempre sentirei falta de cada canto que visitar. 
Daqui de Floripa eu não levarei nada além de fotos e não deixarei nada além de pegadas. 

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