31 março 2015

31º dia - Rotina do meu dia-a-dia

Mais um sábado a fazer plantão no hospital, das 7h às 19h. Estou eu a sair de casa e a cruzar-me com o pessoal a sair das festas, acho que me consigo habituar a isto. Não me posso queixar, afinal de contas levanto-me às 5:30h da manhã, vou ao ginásio das 6:00h às 6:45h, tomo um duche e sigo para o hospital para começar mais um turno, em dias normais saio às 13:00h, almoço de graça num hotel e às 14h tenho um motorista da UFSC que me leva até à praia, onde relaxo numa cama de rede, apanho banhos de sol e mergulho em águas cristalinas. Volto para a minha casa da praia, faço jacuzzi durante uma hora enquanto observo o pôr do sol, janto, adormeço na minha enorme cama de casal e no dia seguinte acordo com o despertador a dar novamente as 5:30h e percebo que não passou tudo de um sonho.
Na verdade eu acordo realmente às 5:30, saio uns dias às 13:00h outros às 19:00h, a diferença é que passo as restantes horas em casa a fazer um relatório que só terminará a meados de Junho.
Incrível a minha habilidade para vos fazer passar da inveja para o prazer num ápice né? Isso, gozem à vontade.




29 março 2015

30º dia - Santo António de Lisboa

Hoje fui com elas visitar Santo António de Lisboa, que fica no norte da ilha de Floripa. De facto este cantinho tem ares de Portugal e quase me senti em casa. Fui até à igreja e rezei por cada cidadão deste mundo, agradeci esta experiência e toda a protecção que Ele me tem dado, por último pedi-Lhe paz, que terminasse com toda a guerra atual no mundo. Fico angustiada só de ver as notícias e imaginar. Agradeço por nunca me ter faltado nada, por ter nascido em Portugal e ser tão feliz. Eu um dia ainda vou fazer a diferença no mundo, se não conseguir ao menos farei a diferença no mundo de alguém.
A viagem de volta para casa foi um pouco atribulada. Primeiro porque não sabíamos qual o ônibus mais direto e perto, acabámos por apanhar um que iria até ao terminal da trindade e aí teríamos de mudar de ônibus. Para além do ônibus andar a uma velocidade de 120 km/h em curvas, conseguimos apanhar o ônibus errado no terminal. O ônibus praticamente levou-nos ao ponto de partida. Tivemos que mudar de ônibus num outro terminal para irmos até ao terminal certo e apanhar o ônibus que nos deixava em casa. O que era para ser uma viagem de meia hora tornou-se numa viagem de quase 2 horas.
Por opção do destino, nesse ônibus onde nos enganámos estava um americano, um brasileiro e um uruguaio também perdidos. O melhor sotaque que já ouvi foi mesmo o de um americano a falar português, lindo! Foram quase 2 horas de conversas e muiiiitas gargalhadas, fizemos a festa no ônibus. Por aqui é assim que se fazem amizades improváveis.













28 março 2015

29º dia - Condução Brasileira

Vocês não estão bem a ver a condução dos brasileiros... é quase parecida à minha.
Regra nº 1: passadeiras, o que é isso? Bem podes puxar de um banco e esperares sentado até que uma alma caridosa pare, e quando decide parar liga os 4 piscas para avisar que podes passar com (in)segurança;
Regra nº 2: uma mota não pára em caso de 4 piscas, ou corres ou és atropelado;
Regra nº 3: nas rotundas não há prioridades. Quem está na rotunda até pára para um carro entrar. E piscas não existem nas rotundas nem cruzamentos, só para te avisarem que podes mesmo passar a passadeira;
Regra nº 4: quando te deixarem passar tens que agradecer SEMPRE com um fixe com o dedo;
Regra nº 5: STOP? Que sinal é esse?;
Regra nº 6: os ônibus pelos vistos têm autorização para andar à mesma velocidade que uma ambulância numa emergência a um EAM (vão pesquisar);
Regra nº 7: os semáforos são bem diferentes, a luz vermelha vai descendo até ficar verde e vice-versa. Não perceberam pois não? Esqueçam;
Regra nº 8: o travão só existe para casos de emergência, curvas não contam;
Regra nº 9: carona é a coisa mais banal por aqui;
Regra nº 10: apitar para qualquer rabo de saia é fundamental para qualquer atrasado mental.

28º dia - Sinto-me pequenina

Se dói? Dói. Claro que dói, acompanhar o processo de tratamento de pacientes oncológicos não tem sido fácil, pessoas essas por quem vou tendo um carinho especial por ter que puncionar as suas veias (dramático), por ouvir as suas histórias de vida, como chegaram ao diagnóstico, como se sentiram, o que fizeram e o tamanho da força com que lutam. Incrível como todas elas dão valor às pequenas coisas da vida, aos momentos e sorrisos esboçados. Todas elas me ensinam diferentes maneiras de viver, como ultrapassar dificuldades e como ser feliz com tão pouco. Fazem-me reflectir sobre diversas situações que vivi onde poderia ter sido menos gananciosa e mais humana. Muitas vezes sentimos que somos boas pessoas, que ajudar um cego a atravessar a estrada é o suficiente, mas quando conheces pessoas bem mais humanas com experiências incríveis sentes-te pequenino, sentes-te um passarinho fechado numa gaiola e descobres que afinal não és assim tão bom, que poderias ser melhor se isto ou se aquilo. Aí, se quiseres mudas a tua perspectiva, os teus ideais e princípios, sais da gaiola, aprendes a voar e... ou mantens o equilíbrio ou cais. Neste momento estou a aprender a voar. 
Menos parlapiê e mais atenção. Dos 5 sentidos, a audição é a melhor porta de entrada para histórias e aprendizagens. Descobri isso quando perdi a minha.

27º dia - Quimioterapia

Hoje foi o meu primeiro dia no ambulatório de quimioterapia no Hospital Universitário, o dia que mais temia passou a ser um dia especial. Somando o facto da minha enfermeira tutora ser muito experiente e exigente (o que é bom), com o facto de trabalhar numa equipa multidisciplinar extraordinária... é perfeito! O meu objetivo passa por ser o mais autónoma possível adquirindo um vasto conhecimento na área, para que desta forma me possa tornar uma excelente profissional de saúde. O bom e muito bom não me chega, eu preciso de ser excelente, de ser melhor. Não melhor que os outros, mas sim melhor do que sou. Posso ser muito desleixada e distraída no dia-a-dia mas a única coisa pela qual me julgo perfeccionista é na enfermagem, não há margem para erros. Se é para administrar 249 ml de SF 0,9% então que seja desperdiçado 1 ml. Aqui dão muita importância à contaminação, ao mínimo toque, lixo. E eu gosto disso, faz parte do meu perfeccionismo. Por mim ficava já aqui a trabalhar.

26 março 2015

26º dia - Parabéns Floripa!

Hoje, dia 23 de Março, é feriado. É o aniversário de Florianópolis. Esta ilha maravilhosa festeja os seus 289 anos! Não é um mimo? Cada cidade tem uma data de aniversário! Perguntaram-me quando era o aniversário da minha cidade e claro que não tive resposta, mas quando me perguntaram se ao menos Portugal tinha data de aniversário, respondi que ainda não nasceu, o pirralho está ainda no ventre da mãe Europa, muito prematuro.
Ouvi dizer que aí em Portugal já se encontram nas férias da Páscoa, adivinhem... aqui não há férias da Páscoa, não existe a tradicional segunda-feira de Páscoa. É feriado sim no dia 3 de Abril e ao invés de passar o dia no campo/praia vou passá-lo num lugar que vocês nem imaginam!! Depois saberão. 
Tirei a tarde para passear no Parque Ecológico do Córrego Grande com duas amigas loucas (já não vivo sem elas). É um parque enorme onde é possível correr e tem máquinas de exercícios (embora pouco eficientes), tem vários lagos, uma trilha, lojinhas e vários animais, desde coelhos a macaquinhos. Eu perco-me na natureza!




24 março 2015

25º dia - Mini Monkeys

Pela primeira vez passei um dia sem sair de casa. Tirei o meu domingo para ficar na preguiça, mesmo assim acordei as 7h da manhã sem sono, ainda estou no fuso horário português. Abri a janela do quarto e eis que me deparo com um macaquinho a olhar para mim!! Tão cutxi cutxiii! Queria tanto pegá-lo e adotá-lo que o assustei, fugiu e nunca mais o vi. Aqui no meu bairro há imensos a passear pelos quintais, varandas e telhados. Eu ainda vou fazer amizade com eles, dar-lhes nome e levá-los comigo para Portugal! Quando conseguir fotografá-los mostro aqui. São tããão fofos!
Quanto ao domingo secante, não posso passar mais dias fechada em casa, faz-me mal.
Ah e estou à procura de uma nova casa. Embora adore esta casa, este bairro e as minhas 10 colegas, algumas delas irmãs, não posso ficar aqui. Primeiro porque a senhoria apresentou-nos um contrato inesperado com regras DEMASIADO exigentes e fora do normal. 10 minutos para tomar banho, com direito a relógio no banheiro para contar bem os minutos. As visitas não podem passar da sala para cá. Proibido animais de estimação mas temos que cuidar do gato dela, isso. Proibido colocar sacos de plástico numa tal gaveta, onde fez questão de deixar um SÉRIO aviso, não sabia se havia de rir ou chorar. Proibidíssimo haver barulho e pessoas a partir das 22h. Dormir cá visitas ou namorados? NEM PENSAR, que pecado, rua. Para sair de casa temos que destrancar e trancar 3 portas, só para isso tenho que tirar 10 minutos sempre que quiser entrar ou sair, já me apeteceu ir comer um gelado e não ir pela preguiça de destrancar e trancar cadeados. Obrigadas a manter a comida no frigorífico do quarto e ter que sair com um tabuleiro para a cozinha. Não tenho paciência. E muitas outras regras ridículas que faço questão de não mencionar aqui. Portanto eu e mais umas 4 ou 5 colegas estamos à procura de outra casa.
Tenham uma excelente semana!

23 março 2015

24º dia - Termos diferentes

Neste sábado fiz plantão pela primeira vez, trabalhei das 7h as 19h, doze horas num hospital! Não me posso queixar, quando temos uma equipa de trabalho fantástica o tempo passa a voar e o turno torna-se bastante produtivo ao lado de uma enfermeira excelente!
Esta semana a integração foi um pouco difícil devido aos termos e forma de trabalho diferentes de Portugal. Quanto aos termos, por exemplo, em Portugal hipertensão abrevia-se HTA, no Brasil é HAS. Eu via aquela abreviatura em tantos processos e não sabia que raio significava. Mais exemplos:
Em Portugal, cateter venoso periférico, CVP - no Brasil abrevia-se AVP.
Em Portugal, AVC - no Brasil abrevia-se AVE.
Em Portugal, arrastadeira - no Brasil diz-se comadre. Estão a ver a minha reacção quando me pedem para ir buscar a comadre não estão? "Desculpe? A minha comadre?"
Em Portugal, urinol - no Brasil diz-se papagaio. Isso, não me perguntem porquê, essa ainda estou para entender, mas que me ri, ri.
Em Portugal referimo-nos ao medicamento pelo nome genérico - no Brasil referem-se pelo nome comercial, o que torna tudo mais complicado para mim.
Em Portugal, quando uma pessoa está sem febre dizemos apirético - no Brasil, afebril.
Em Portugal dizemos glicemia a 130 - no Brasil dizem HGT a 130.
Em Portugal dizemos "vamos fazer um penso" - no Brasil dizem "vamos fazer um curativo".
Em Portugal dizemos "vamos algaliar" - no Brasil dizem "vamos passar sonda", quando perguntei à enfermeira se ia algaliar o paciente ela pediu-me para repetir e riu-se. Algaliar no Brasil é outra coisa, e ruim.
Em Portugal dizemos rapariga - no Brasil dizem menina ou moça. Rapariga é uma menina das esquinas, se é que me entendem. Muitas vezes deixo sair a palavra rapariga e todos os olhos se viram contra mim.
A melhor das melhores foi quando fui ao supermercado da última vez, passei pela caixa e a senhora com muita simpatia e gentileza, olha-me nos olhos e diz "São 12 pilas minha querida", eu "hum? Desculpe? Não ouvi bem, devo estar sem pilhas...", ela "DOZE PILAS!!", eu "Isto é alguma piada? Eu não tenho uma pila quanto mais doze!". Aí a mulher começou a rir que nem uma louca que quase caiu da cadeira, recompôs-se e perguntou-me se era brasileira. Lá me explicou que aqui costumam substituir o Real por Pilas, portanto eram 12 reais. Nunca mais me esqueci, como é que havia de me esquecer. Pilas... onde é que isto já se viu.

22 março 2015

23º dia - Praia da Galheta

Saí as 13h do Hospital com sede de praia, não precisava do sol, só do mar. Vesti o biquíni à pressa e apanhei o primeiro ônibus que parou. Uma amiga queria-me mostrar a famosa Praia da Galheta, a praia de nudismo. A praia é linda, fiquei rendida! Quanto à parte do nudismo - algumas pessoas ainda estão encravadas na palavra - não consigo ver o corpo humano despido como algo meramente sexual. Adoro as curvas de um corpo gordinho, de um corpo magro, de um corpo com e sem complexos. A forma em V das nossas costas, a coluna saliente, a forma do rabo com ou sem celulite, um peito pequeno ou grande, é indiferente. É o nosso corpo, é onde habita a nossa alma. Observem a vossa sombra, observem as vossas curvas, apreciem. Eu vejo arte. 














22º dia - Dia do Pai

Foi a primeira vez que passei este dia a 8.432,78 km do meu pai. Demorei 3 dias a escrever este post. Chegava a casa após o estágio e a página continuava em branco, rapidamente abria outro link só para não ter que escrever. Já estranharam a ausência dos posts, então hoje teve de ser. Torna-se difícil escrever sobre as pessoas mais importantes da minha vida quando a distância é tudo o que nos une neste momento, e isso dói, não aguento e choro. Para escrever é necessário sentir, e o que sinto pelo meu pai é amor puro, é orgulho, é saudade e medo. Medo de perdê-lo. Medo de nunca mais o ver. Medo de ser obrigada a mergulhar no baú das recordações. Medo que o nosso livro, entre pai e filha, esteja a terminar. Medo que os meus filhos não conheçam e não sejam educados pelo meu pai, pois não sei se terei capacidades para educá-los como ele me educou. Eu sei a sorte que tenho em ter o meu pai ao meu lado, não sou egoísta. Mas continuo com medo, não sei como viveria sem ele. Entre lágrimas, não consigo imaginar. O meu pai é tudo quando não existe nada, é o maior exemplo da minha vida. Quero olhar ao espelho e ver-me nele...
Preciso de uma pausa...

(após 3 horas)

Voltei. Voltei a deitar-me na cama de rede da varanda a contemplar este céu cinzento. Estou a tentar escrever pouco dizendo muito mas não sei se estou a conseguir transmitir o que estou a sentir. É a primeira vez que estou a fraquejar, aqui, longe, sozinha. Tanta coisa que me podia animar neste momento mas nada melhor do que ver o meu pai ao fundo da rua. Só de pensar... E sabem que programava para hoje? Leva-lo-ia a velejar até à Ilha do Campeche, faríamos mergulho para observar a imensidão do oceano, dos peixes e corais. Ele ia adorar. Ele e o mar complementam-se. Um coração de marinheiro não morre nunca. Amo o meu pai. Amo os meus pais. Ambos passaram este dia sem os respectivos pais. 

Desculpem-me por não estar presente. Sei que esta distância valerá a pena, só nunca pensei que fosse preciso tanto sacrifício para atingir o sucesso. A escadaria está pesada mas cada dia subo um degrau, afinal de contas já subi 22.


20 março 2015

21º dia - Mestrado

Hoje quando saí do estágio a professora coordenadora do curso de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina fez-me uma proposta: inscrever-me no mestrado aqui na universidade com direito a bolsa. Preciso de falar nisto aqui porque de alguma forma deu-me a volta à cabeça, passei o dia a bater com a cabeça nas paredes. Nunca ponderei essa hipótese e de facto é uma grande oportunidade. Queria tirar mestrado só daqui a uns anos, pois em enfermagem na actualidade quase que não compensa, a não ser para nível pessoal. Mas vendo as coisas desta perspectiva agrada-me. Já tive uma conversa com os meus pais e eles deram-me liberdade para decidir, embora tenha pressentido a tristeza da minha mãe. Sinto-me entre a espada e a parede, já tinha planos para quando chegasse a Portugal, já tinha uma cidade escolhida para viver, uns hospitais em vista, casas... E decidir arrancar com as folhas dos planos traçados não é nada fácil mas de qualquer forma agrada-me pois dou por mim a procurar motivos para permanecer em Floripa por mais tempo. Estou rendida. Irei a Portugal receber o diploma e inscrever-me na Ordem dos Enfermeiros, pois não posso perder um dos momentos mais felizes da minha vida, em que receberei finalmente o título de Enfermeira (desde talvez os 8 anos que sonho com isto!). Não sei quando iniciaria o mestrado mas irei pesquisar e tentar saber pormenores. Vai demorar para decidir. Estou entusiasmada, que querem? Sou assim. Há quem prefira ficar deitado à sombra da bananeira à espera que as bananas caiam, eu cá prefiro trepar a árvore e colhê-las.


19 março 2015

20º dia - Coragem

Ao longo destes últimos meses várias pessoas me elogiaram pela coragem de pegar nas malas e atravessar o oceano sozinha. Eu nunca consegui entender sobre qual tipo de coragem falavam. A coragem de deixar a minha família? Os meus amigos? O meu namorado? A coragem de vir sozinha? A coragem de sair da zona de conforto? A coragem de ficar longe tanto tempo? Ou a coragem de aterrar sem casa ou previsões? A coragem de aguentar a saudade? Ou a coragem de ter coragem?
Eu não sei por onde começar a explicar mas a verdade é que eu nunca pensei em nenhuma dessas questões, sou sincera. Eu sempre quis fazer intercâmbio, eu sempre disse que queria ter uma experiência a nível de estudos cá fora. E o que eu digo eu faço, ponto. Na hora de me candidatar, tratei da burocracia sozinha, fui à entrevista, consegui e chorei. Nem na hora de fazer as malas, virar costas e partir no avião pensei em coragem. Realizar um sonho não é um acto de coragem, é um acto de persistência. Eu não deixei a minha família, eles estão comigo todos os dias. Eu não deixei os meus amigos, eu fiz novos amigos. Eu não deixei o meu namorado, eu vejo-o todos os dias através da web. Sim, eu vim sozinha e na verdade todo mundo precisa de um tempo sozinho, estou a conhecer-me e a descobrir os meus limites, estou a crescer, estou a aprender a desenrascar-me sozinha e a confiar mais em mim. Após algum tempo sem as habituais pessoas na minha vida aprendo a valorizar a importância que elas têm para mim. Sozinha sou obrigada a fazer novos amigos, aprendo a dialogar com as pessoas, a construir amizades. Vivo com pessoas de lugares diferentes, com experiências incríveis, isto fornece-me uma visão mais ampla da realidade. Sim, eu mergulhei fora da minha zona de conforto e não há nada melhor do que isso para me fazer ver que a vida não é estática, as aventuras que estou a viver renovam o meu coração. Gosto dos dias diferentes, transformá-los em experiências incríveis, com isso vou mudando a minha postura, a minha maneira de ser e estar. Sim, eu corro o risco de me perder, aliás, já me perdi e não sabem os lugares mágicos que descobri sem querer. Aqui percebi que nada difere uma população de outra, somos todos iguais por sermos todos diferentes, somos irmãos e cuidamos um dos outros, criamos laços afectivos. A saudade? Essa aqui ainda não bateu à porta com força, dá uns encostos mas nada de grave. O facto de estarmos ocupados, seja a estagiar ou no divertimento faz o tempo passar a voar. Se senti receio de ter saudade? Não, eu sabia e sei que vou sentir, na hora eu vou chorar muito mas sei que terei forças para limpar as lágrimas. Tenho consciência que estou a viver uma experiência única na minha vida, o que são meros meses fora de casa em 21 anos de existência? Quando der por mim já estou no avião de regresso. E quando chegar a Portugal será bom rever a família, o namorado, os amigos, as ruas, a minha casa, o cheiro da comida da minha mãe... mas aí vai bater uma forte saudade de Florianópolis, do clima, dos meus novos amigos, da minha universidade, do hospital, das praias, da tranquilidade da ilha. Daí eu dizer que não quero ser residente de uma cidade daquele país, quero viver no mundo, pois eu sempre sentirei falta de cada canto que visitar. 
Daqui de Floripa eu não levarei nada além de fotos e não deixarei nada além de pegadas. 

18 março 2015

19º dia - Segundas-feiras

Segunda-feira é sinónimo de? Acordar às 5h30 da manhã. Isso. Eu achei tão ridículo que quando o despertador tocou eu pensei mesmo que estava a sonhar. Sinto que durmo meia hora por noite. Demorei 15 minutos para sair da cama com um olho meio aberto e outro fechado, rastejei até à janela na esperança da claridade me despertar... aí eu reparei que ainda era de noite gente! Eu não fiz nada para merecer isto. Saio de casa, coloco os fones e faço 20 minutos a pé até ao hospital, só quando o segurança me diz "Bom dia! Tenha um bom trabalho!" é que eu acordo e o sono se vai. Não estou a brincar, a boa disposição contagia mesmo. Chegar ao serviço e saber que há pacientes a melhorar é outro factor que me deixa feliz.
Mudando de assunto, tenho acompanhado a nova novela portuguesa Única Mulher e estou rendida à personagem da Ana Sofia Martins! Ela sim representa o papel de uma enfermeira genuína, verdadeira e completa, não aquela desgraçada dos Jardins Proibidos com o silicone à mostra a fazer-se ao Sô Dotor. Observem a personagem Mara e fiquem a conhecer um pouco do que é ser enfermeiro na atualidade.

17 março 2015

18º dia - Homo(sexualidade)

Gostei particularmente deste dia. Como dormi na Lagoa, passei o domingo a passear com uma amiga, sentámo-nos à sombra na beira da Lagoa, fotografámos e conversámos por horas.
Aproveito o post para falar de um assunto incomodativo para uns, agradável de ler para outros. Sabem quantos casais homossexuais já vi por aqui? Eu também não, mas foram alguns, mais do que vi na minha vida toda. Casais de dois rapazes a passear de mãos dadas, visivelmente apaixonados. Sim, eu olho e observo, não por me fazer "confusão" mas sim por admiração. Invejo-os por isso, também queria ter o meu aqui. Admiro-os por ignorarem a sociedade retardada. Admiro-os por colocarem a felicidade em primeiro e a opinião dos outros em último. Admiro-os pela simplicidade e pela forma como ignoram o padrão da normalidade. Não os considero corajosos, para assumir e ser feliz não é preciso coragem, sim personalidade.
Não sou ninguém para debater este assunto mas tenho liberdade para dar a minha opinião. A homossexualidade não deve ser vista como uma doença, mas sim como uma possibilidade de desenvolvimento na esfera sexual. Vem um retardado sem argumentos e diz "Deus fez o homem e a mulher para alguma coisa (...) é o normal", eu sou católica mas tenho consciência tá bom? Deus também disse para nos amarmos e respeitarmo-nos uns aos outros. Mas afinal de contas o que é "normal"? Normal é tudo aquilo que é aceite enquanto padrão de comportamento pela maioria da sociedade. E se ser normal é isso, o comportamento narcísico é o mais normal que existe, pois vivemos em uma sociedade narcisista. Certo ou errado? Mas confessemos, já existe avanços neste sentido, pois tendo em mente o passado onde as pessoas eram presas e violentadas publicamente só por serem homossexuais, hoje já há homossexuais em cargos políticos, médicos, professores, atores, religiosos, empresários, etc. O homossexual é muito mais que uma mera prática sexual, pois quando se levanta pela manhã ele é um ser humano e cidadão com posturas, ideais e valores como outra pessoa qualquer. Quanto à adoção de crianças por casais homossexuais sou completamente a favor (não me encham a caixa de comentários com discussões ok?). "Ah mas as crianças vão crescer e vão ser como eles (...) não vão ser bem educadas, o correto é terem um pai e uma mãe, bec bec bec", esta conversa da treta chateia-me muito. A homossexualidade não se pega, não é uma doença. A criança irá crescer e tomar a sua orientação sexual e podem ter a certeza que se for realmente homossexual não será posta fora de casa pelos pais adotivos. Como é que um casal homossexual tem menos capacidades de educar uma criança quando a própria criança foi abandonada por um casal heterossexual? ;) 

Menos preconceito e mais respeito, por favor. Até o grandioso Papa Francisco o diz "se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la? Os homossexuais não devem ser marginalizados, devem ser integrados na sociedade". Adorei saber que o Papa Francisco afastou um cardeal por ser contra direitos dos homossexuais. Amém.







17º dia - Piscinas Naturais

Quando estava em Portugal, aos sábados, não sabia se iria ver primeiro o jogo de basquet ou de futebol, se ia beber café ao Hambuá ou ao Tapas. Agora passo os sábados a decidir para qual praia vou e qual ônibus devo apanhar, enfim... não me interpretem mal mas a vida realmente dá muitas voltas.
Nesta manhã decidi ir com um grupo de portugueses fazer a trilha da Barra da Lagoa que dava para umas piscinas naturais de cortar a respiração! Observem bem as fotografias. À tarde fomos pela primeira vez à Prainha do Leste, que por acaso ficou como uma das minhas praias favoritas, areia baixa, pequenas ondas, temperatura da água óptima e vegetação à volta. Perfeito!
Há quem prefira fazer intercâmbio longe de portugueses mas junto deles sinto-me perto de casa. Já para não falar que a companhia dos meus portugueses é inevitável, adoro-os e sei que quando precisar estarão lá para mim. 
À noite como tínhamos uma pool party na casa de um amigo, e a minha casa ficava no centro, jantei e dormi na Lagoa na casa delas. A festa começou logo no ônibus claro. Quando chegámos, a casa e a piscina já nem se viam de tantas pessoas que lá estavam, intercambistas e brasileiros, foi de arromba! Nunca esperei que fosse todo o mundo! A casa para além de enorme, com jardim e pista de dança na garagem, era linda! Prefiro festas na casa de alguém do que festas da universidade. Passamos a noite a falar português com sotaque brasileiro, inglês, francês, espanhol... até acabarmos a falar "chinês" com dois copos de caipirinha na mão, se é que me entendem. Conhecemos imenso pessoal a viver a mesma experiência que nós e isso é reconfortante. Estamos todos para o mesmo, quer dizer... nem todos, 99% vieram para curtir e 1% para estudar vá. Eu sou o 1%. O final da noite não vos conto, os meus amigos não deixam.
















À noite