04 janeiro 2014

"O Baile" - João Bernardo

Há 14 anos que sou amiga desta criatura e nunca lhe conheci estes dotes. Já li a história precisamente 4 vezes do início ao fim e cada vez fico mais impressionada... Não fossem estes anos todos e ele ser um dos meus melhores amigos, eu já teria calçado as pantufas e descido a rua, ele que me esperasse à porta dele, apaixonada.
Leiam, a sério!



"Estamos no pavilhão que alberga o tão esperado baile da vila, adivinhava-se cheio e o pressentimento revela-se mais que certo, duas horas e meia após ter começado. Estou acompanhado da mais bela rapariga que conhecera desde que adquiri consciência. 

Aconteceu 3 dias antes deste evento, numa quente tarde de terça-feira que, de tão ensolarada que estava, a mulher pareceu ainda mais angelicamente bela. «Raios, como há mulheres bonitas!», pensei eu imediatamente após desviar os olhos da sua direção. 

Crescera a pensar que tal espécie de beleza era apenas existente em mundos de desenhos animados realistas e em telas de Hollywood.

O seu longo cabelo dançava nas leves e aquecidas brisas de verão, os seus olhos azul-céu transpareciam paz e felicidade interiores aos que a atentavam. Quanto aos meus olhos, automaticamente fixavam o seu rosto sem querer abandonar a inevitável tarefa de a olhar. A si e à sua beleza. 

Toda ela refletia o Bem: olhar inteligente e descontraído, sorriso tímido e verdadeiro, rugas que não expressavam outra emoção que não a genuína felicidade, esculpida por um escultor atento aos detalhes estéticos. Que ser humano mais bem representativo em definições de beleza, toda ela majestosamente visível aos olhos dos 'vulgares'. Senti-me bem, diabos! Os deuses empurraram-me para ela, na esperança de que a sorte triunfasse em terreno de azar. 

Avancei! Há apenas receio em como reagir à sorte, quanto ao azar já me habituei. Mantinha a aventura em atividade, passo a passo, nos primeiros destes, as pernas tremiam mas rapidamente tomei postura adequada para me apresentar. À medida que me ia aproximando dela acreditava mais vivamente que o Paraíso existia, pensei que este vinha e voltava em raros momentos da nossa vida, eu estava a viver um desses momentos, um pequeno paraíso que se veio representar na Terra, trazendo com ele todas as perfeições em tudo o que nos rodeava ou compunha. Esta visão e sensação são dignas de recordação nos distantes e futuros anos. Saberei como é o Céu, se é que este existe, enquanto guardar esta memória. 

Tinha vindo visitar seu pai que se havia recentemente mudado para a vila. Veio para passar as férias de verão. 

Falámos. Dialogámos. Chegámos a veredictos vários e por duas vezes discordámos de opiniões. Tudo isto se passava no meio de risos e sorrisos naturais sustentados por um momento feliz. O paraíso é tão gracioso como o pintamos nas nossas mentes. Estava feliz, estava realmente feliz. Mas que sensação mais fantástica! 

Tomei coragem e falei o que já há largos minutos me assaltava o pensamento, tinha de usufruir da sorte e espremer dela tudo o que conseguisse: «Vem comigo ao Baile da Vila!». 

«Há boa música?» interessou-se ela. 

«Não, mas a bebida compensa-nos.» 

Lançou uma risada audível. 

Pensou, ou pelo menos notava-se pensativa. Ponderava a resposta que viria. 

O suspense corroía-me por dentro e tentava, em vão, ler nos seus olhos qual seria o meu destino. 

A espera continuou… «Sim!» 

Ela aceitou. 

Agradeci mil e quinhentas vezes aos deuses por me homenagearem pela dura e forçosa resistência à solidão. Era altura de desacompanhar a solidão, altura de deixá-la amparada como a mesma nos deixa a nós. 

3 Dias, 6 horas, 31 minutos e 6 segundos passaram.

Ali estava ela novamente! Recebeu-me à porta de casa. Desta vez o sol estava ausente, mas não o brilho. O brilho ateimava em ficar. O seu sublime corpo apresentava-se num vestido vermelho-tinto que corria até aos joelhos. Toda ela brilhava, de maquilhagens ou de intervenção divina. Não importava, toda ela brilhava fosse pelo que fosse. 

Viemos para o baile. Fomos recebidos enquanto centro de atenções, duas em cada quatro pessoas seguiam-nos os movimentos e tentar adivinhar quem era que me acompanhava, figura mais bela. Imunes e desconectados de tudo o que nos rodeava, sentados e próximos falámos, falámos e rimos tantas mais vezes como que para compensar todo o tempo que se demorou a chegar até nos conhecermos. 

Alguém discursava no palco, estávamos na parte exterior do pavilhão, usufruindo de uma agradável noite de calor intenso e na companhia de um cigarro que já estava nos seus últimos tragos. Um silêncio constrangedor aborda-nos, caindo em cena sem ser convidado. Tento disfarçá-lo com um sorriso forçado e ela apercebe-se. Rodeia-me o corpo com os seus delicados braços e junta o seu corpo ao meu, apoia a cabeça no meu peito e depois olha para cima como que a pedir a minha iniciativa e a dar-me coragem sem me falar. 

Beijei-a, tudo à nossa volta pareceu…” 

Algo me tinha acordado. 

O telemóvel! Uma chamada tardia de um amigo. A realidade acordou-me. 

«Vais ao Baile amanhã?» perguntou-me. 

«Não.»

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